O caminho do alimento no organismo humano começa muito antes do que conhecemos como digestão no estômago. É na boca que se tem o primeiro contato entre nutrientes e indivíduo, o processo se inicia pela salivação, que ocorre antes mesmo da mastigação. Quando se sente o aroma, observa as cores e apresentação do prato, ou pensa em um alimento, o corpo já começa a produzir saliva, se preparando para receber a comida. Esse é o primeiro sinal de como os sentidos humanos: visão, olfato, paladar, tato e até audição estão totalmente envolvidos no trajeto do alimento no sistema digestório. É interessante pensar que comemos não apenas para saciar a fome, mas para sentir prazer. E ao nos depararmos com um alimento que chama a nossa atenção, todos os nossos sentidos entram em ação automaticamente. O olhar atento ao que está sendo servido ou cozido, em seguida, o olfato entra em cena, sentindo os aromas que muitas vezes remetem a algo afetivo. O paladar, mesmo antes de sentir na boca, já se antecipa o cérebro “lembra” do sabor e prepara a boca por meio da salivação para recebê-lo. É nesse momento quando as glândulas salivares começam a produzir saliva para lubrificar e facilitar a mastigação que virá logo em seguida. O tato também participa no contato direto com o alimento e na percepção da textura. Até a audição é ativada no som da comida sendo preparada ou o barulho de algo sendo servido. Todos os sentidos juntos aumentam a expectativa e o prazer envolvido no ato de comer.

Assim, se alimentar ganhou novos significados ao longo do tempo, o que durante a pré-história era símbolo apenas de sobrevivência, hoje simboliza muitas vezes o elemento principal de festividades, encontros sociais e bons momentos. “Todos em volta da mesa”. Além do prazer, alimentar a máquina inteligente e potente que chamamos de corpo humano ainda é uma necessidade básica. Pela boca há entrada de macronutrientes e micronutrientes, ou seja, o que chamamos de alimento no geral. Nosso combustível vital e prazeroso. Mas como esse mecanismo básico de entrada de alimento no corpo é interferido pela nossa saúde bucal? A trituração dos alimentos pelos dentes e o papel da saliva são essenciais para garantir que o processo digestivo funcione. Sob essa perspectiva, a odontologia exerce um papel de extrema importância, já que qualquer alteração nessa área pode comprometer a mastigação, limitar escolhas alimentares e, consequentemente, afetar a forma de se alimentar e saúde geral das pessoas. O que conhecemos como dentes anteriores são responsáveis pelo corte e trituração do que entra pela boca e qualquer alteração ou desequilíbrio afeta essa inteligente função do corpo humano

Quando se tem todos os dentes, os dentes e articulação fazem movimentos para produzir o corte (dentes anteriores) e a trituração dos alimentos (dentes posteriores). Ao perder um elemento dental, o que antes era 100% eficiente perde em torno de 25% desta trituração. Os movimentos básicos que utilizamos na Clínica Envelhecer Sorrindo é chamado de fisioterapia oclusal, que basicamente consta de 4 movimentos:

1° Abertura e fechamento de boca em linha mediana;

2° Protrusiva sem desvio da linha mediana, que é o movimento que as pessoas fazem para cortar um alimento com os dentes anteriores;

3° Lateralidade direita que é o movimento de lado que a boca faz para triturar os alimentos de um lado apenas da boca e, depois a língua leva o alimento para o 4° movimento;

4° Lateralidade esquerda que irá fazer o alimento ser triturado utilizando os dois lados da boca para que os músculos possam descansar enquanto o alimento está de um lado.

  Os movimentos devem ser suaves e sem a interferência de outros dentes. Por isso que se previnem as doenças da boca (cárie nos dentes e doença periodontal nas gengivas), pois sem alterações importantes nos movimentos básicos da boca que se fazem ao mastigar, pouco se pensa sobre o impacto que isso acarreta nas mudanças alimentares. Mas basta uma dor de dente ou falta deles para a situação mudar. O torresmo com feijoada aos sábados se transforma em um caldo de feijão, e de repente a carne assada causa desconforto. A comida que antes trazia prazer, hoje precisa ser evitada.

Em uma anamnese com pacientes que buscam atendimento nutricional, uma pergunta básica é como está o estado da sua saúde bucal, se há falta de dentes, dor ou desconforto ao mastigar. E nesse momento a nutrição busca apoio na odontologia. Afinal, como indicar alguns alimentos se o paciente mal consegue mastigar com qualidade? Além disso, não mastigar corretamente os alimentos pode levar a engasgos, porque se feito o corte, trituração e mastigação de forma correta, os alimentos são reduzidos a pequenas partículas e facilitam a passagem até o estômago, mas se isso não acontece da forma desejada, é um “prato cheio” para o engasgo. Já se perguntou o que é um engasgo? Engasgar é como quando você coloca uma chave diferente na fechadura. A chave não entra corretamente e trava. O engasgo acontece quando o alimento “segue o caminho errado”. Em vez de ir para o esôfago, que leva a comida até o estômago, ele entra na traqueia, que é o tubo por onde passa o ar. Isso pode ocorrer quando o alimento não está bem triturado, quando a língua não consegue organizar o bolo alimentar direito ou quando há dor, falta de dentes ou dificuldade em usar a prótese. Nessas situações, a mastigação fica ineficiente e o corpo perde um pouco da “sincronia” entre mastigar, respirar e engolir, aumentando o risco de o alimento desviar para as vias aéreas. A mastigação não é apenas “amassar a comida”, mas um movimento coordenado entre língua, bochechas, lábios e mandíbula. Quando há perda dentária, dor ou dificuldade para usar a prótese, esses movimentos podem ficar desorganizados, fazendo com que o alimento não seja bem triturado ou dividido em pedaços adequados. Isso aumenta ainda mais o risco de engasgos, porque a língua tem dificuldade para juntar o alimento e posicioná-lo no caminho correto. Durante a adaptação à prótese dentária, é comum que o paciente mastigue mais devagar, escolha sempre o mesmo lado ou sinta insegurança ao comer.

Em vista da importância que as áreas de nutrição, odontologia, fonoaudiologia e fisioterapia tem nesse fantástico processo de se alimentar, o nutricionista não pode se limitar a sua própria área. Como profissional da saúde, precisa ter consciência de que as ciências andam juntas com um objetivo maior: promover a saúde dos indivíduos. E mais que isso, uma boa qualidade de vida.  E a prótese dentária possibilita ao paciente que antes necessitava de uma dieta pastosa ou só com alimentos em textura mole, o prazer da mastigação. Sentir diferentes texturas, provar de todos nossos sentidos juntos e fazer os movimentos básicos de mastigação de ir para o lado direito e esquerdo da boca, não sentir dor por sobrecarregar mais uns dentes do que outros. Tudo muda, transforma o desconforto e até a baixa autoestima em algo melhor e mais prazeroso. A mastigação prejudicada não afeta apenas o prazer ao comer, mas limita a variedade alimentar, o que pode levar ao aumento do consumo de alimentos mais palatáveis e menos nutritivos, os conhecidos “ultraprocessados”, alimentos muitas vezes ricos em sódio, gordura e açúcar podendo comprometer a saúde geral do indivíduo causando doenças crônicas como diabetes e hipertensão e obesidade. Afinal, a nossa máquina inteligente armazena “combustível” como forma de sobrevivência para momentos em que se alimentar não é possível, e isso acontece justamente com o aumento de calorias e pouco gasto calórico. É nesse ponto que a união entre nutrição e odontologia se torna necessária. É papel do nutricionista buscar alternativas de alimentos que não apenas atendam às necessidades nutricionais procurando evitar esses problemas associados ao descontrole alimentar, mas que também sejam fáceis de mastigar e digerir. Além disso, a prótese dentária surge como uma solução de extrema importância para aqueles que perderam dentes e enfrentam algum tipo de limitação ao se alimentar. Ela não apenas melhora a capacidade de mastigar, incentivando o paciente a retomar uma dieta mais variada e nutritiva, mas também melhora o bem-estar geral e autoconfiança dele. A prótese permite que a pessoa retome a confiança ao comer, sem o medo de sentir dor ou desconforto. Com exceção da prótese total em que a pessoa perde 30% da capacidade de trituração, os outros tipos de prótese garantem a sensação quase completa de bem estar ao se alimentar.

Portanto, conseguir mastigar alimentos de diferentes texturas e sabores, com menos restrições e sentindo tudo que essa importante parte da vida traz, garante não só conforto físico, mas um sentimento de felicidade e prazer.

Autores:

  • Professor Associado Roberto Chaib Stegun – Vice Coordenador do Projeto Envelhecer Sorrindo na clínica do Departamento de Prótese da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP)
  • Fonoaudióloga Paola Nicolielo Carrilho da Clínica Odontológica da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo
  • Estudante de Nutrição Uhevillin Carvalho Gama da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) que realiza Atividade Extensionista (AEX) sobre atualização em atendimento de reabilitação oral complexa e Detecção de problemas fonoaudiológicos no atendimento de Reabilitação Oral