O que começou como um estudo científico sobre a conservação de monumentos, transformou-se em uma iniciativa interdisciplinar, que busca romper as barreiras da visão para democratizar o acesso à cultura. O projeto, fruto de uma colaboração entre especialistas da odontologia, engenharia, arquitetura e design da Universidade de São Paulo (USP), utiliza o escaneamento e a impressão 3D para permitir que pessoas com deficiência visual “enxerguem” obras de arte através do tato.
A semente do projeto foi a dissertação de mestrado de Reinaldo Luiz dos Santos, orientada pela Profa. Dra. Fabiana Lopes de Oliveira, docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design, que identificou o potencial do campus da capital como um museu a céu aberto devido ao seu rico acervo de esculturas. Para viabilizar a conservação dessas obras, muitas delas de grandes dimensões, Reinaldo utilizou nuvens de pontos e escaneamento 3D para identificar patologias e propor manutenções.
A grande virada ocorreu quando o Prof. Dr. Paulo Eduardo Capel, docente da Faculdade de Odontologia — que possui baixa visão e está engajado na causa da acessibilidade —, teve acesso ao trabalho e propôs uma parceria com a Profa. Dra. Fabiana. “A minha meta é ajudar pessoas com deficiência visual. Elas têm que ter acesso a tudo, inclusive à cultura”, afirmou o Prof. Dr. Capel durante a entrevista.
O projeto conta com uma equipe diversa para dar vida às réplicas. Enquanto o Prof. Dr. Fabiano Garcia, docente da Escola Politécnica, contribuiu com o escaneamento de alta precisão, o aluno de graduação da FOUSP, Andrei Lescano trabalha com a impressão 3D, e Élton Kinomoto, da FAUD, foca na linguagem visual e na audiodescrição.
As réplicas produzidas não são apenas cópias em miniatura: elas são projetadas para serem “modelos falantes”. O objetivo é que o público possa tocar e interagir com as peças, que contam com o apoio de QR Codes, Braille e áudio descrições para fornecer o máximo de autonomia ao visitante.
A proposta, portanto, vai além da permanência no campus. Os idealizadores planejam levar o museu “móvel” para escolas e instituições, presenteando-as com monumentos impressos e todo o suporte de acessibilidade. A Profa. Dra. Fabiana destaca que o projeto também promove a inclusão “do nosso mundo no mundo deles”, tornando as pessoas sem deficiência visual mais sensíveis à causa.
Para o grupo, o projeto é definido como um “never-ending” (sem fim), com ramificações culturais que não param de crescer, incluindo eventos, perfis em redes sociais e novas parcerias institucionais, como o recente convite para apresentar a iniciativa no Hospital Universitário da USP.
Texto: Théo Gouvêa Filizzola

