No Dia da Visibilidade Trans, a Profa. Dra. Gabrielle Weber, docente da Escola de Engenharia de Lorena (EEL/USP), recorda sua estratégia de “hackear o sistema” para sobreviver, o pioneirismo no uso do nome social e a urgência de transformar a presença trans em algo comum na sociedade e, sobretudo, na universidade

Foto: Vladimir Vladimirov/Canva

Gabrielle Weber é docente da Escola de Engenharia de Lorena (EEL), onde leciona Geometria Analítica e Álgebra Linear para o ciclo básico. Ela é doutora em Física, diretora sindical e atua na divulgação científica por meio do projeto Mamutes na Ciência (Ig: @mamutesnaciencia); coordena os projetos Levantamento da Ciência LGBTQIA+ Brasileira e Corpas Trans na USP, além de desenvolver jogos educacionais no JEDAI.
Contudo, ela não se resume somente à trajetória acadêmica: Gabrielle se define como uma “travesti branca, lésbica e autista, que toca guitarra, pratica artes marciais e gosta de jogos de RPG (“Role-Playing Game”).

Gabrielle Weber – Foto: Arquivo Pessoal

Nós precisamos parar de nos resumir apenas à vertente acadêmica, porque isso é uma prática muito neoliberal de “ser o que a gente faz no trabalho” e esquecer que temos uma vida fora dele.

Gabrielle Weber, docente da EEL

Trajetória

A trajetória de Gabrielle na USP foi marcada por uma estratégia de sobrevivência que ela descreve como “hackear o sistema”. Na época em que se entendeu como uma pessoa trans, ela soube que sua transição de gênero só seria segura após se consolidar na carreira, e para isso viveria anos “fingindo ser alguém que não era” afim de atingir seu objetivo profissional. A docente também contou que sua transição aconteceu na ordem inversa de como geralmente ocorre: começou com a hormonização, e, depois, transicionou socialmente, que ocorreu em janeiro de 2019, motivada pela impossibilidade de “voltar para o casulo” após um período de férias onde pôde viver plenamente sua identidade.

Embora a universidade já tivesse protocolos para os alunos, a Profa. Dra. Gabrielle foi pioneira entre os docentes: o processo de criação da diretriz para nome social no RH foi surpreendentemente rápido. Coincidentemente, seu nome social foi inserido nos sistemas USP no dia 29 de janeiro de 2019, no Dia Nacional da Visibilidade Trans. Contudo, apesar do suporte administrativo, a transfobia estrutural manifestou-se no cotidiano. A docente relata ter perdido colaborações de pesquisa e lidar com colegas de profissão que a evitam nos corredores. “Tem pessoas que não falam mais comigo”, desabafa.

Luta

Atualmente, a Profa. Dra. Gabrielle é uma voz ativa no debate sobre a implementação de cotas trans na USP. No último ano, o movimento obteve o que ela chama de uma “não derrota”: conseguiram fazer com que o relatório que tentava enterrar a discussão sobre as cotas trans na universidade fosse derrubado.
Ela enfatiza que as cotas não são para quem já está no sistema, mas sim para quem não pôde acessar o ensino superior por questões atreladas à rejeição familiar e evasão escolar.

As cotas trans servem exatamente para pegar essa pessoa que não teve acesso garantido e colocá-la para dentro da universidade.

Gabrielle Weber

Para ela, a presença trans deve ser capilarizada em todas as áreas, desde as humanidades até as ciências exatas e da saúde, para que no futuro a transgeneridade possa ser vista como realmente é: uma parte natural da experiência humana.

Foto: Arquivo Pessoal/ Fernanda Zibordi

A naturalização, por sua vez, pode ser alcançada por meio da “desoutrificação”, que ocorre quando a sociedade se abre para conhecer e conviver com pessoas trans de forma genuína, combatendo a estigmatização que esse grupo carrega.

A docente também critica o “tokenismo”, que nada mais é do que a prática de usar minorias apenas como símbolos (token) de diversidade sem compromisso real com as demandas delas. Nesse contexto, ela adota um filtro rigoroso para lidar com convites de entrevistas, como a exigência de contrapartida (para empresas privadas, exige cachês que são convertidos em doações para instituições como a Casa 1) e foco político (prioriza coletivos, escolas e universidades, onde sente que sua voz não será usada apenas como ‘fachada’).

Sugestões e letramento

A docente afirma que “tememos o que não conhecemos”, e o contato com a produção intelectual e artística trans reduz essa barreira. Como parte desse processo, a docente fecha a entrevista com chave de ouro com as seguintes recomendações:

• Abra seus círculos sociais: pessoas cisgêneras devem estar abertas a conhecer e conviver com pessoas trans

• Leia livros, artigos ou teses produzidas por pessoas trans: ela indica o livro Transfeminismo, de Letícia Nascimento, por sua clareza didática, e cita o filósofo Paul B. Preciado como uma de suas referências favoritas

• Apoie influenciadores trans: consumir o conteúdo dessas pessoas trará a realidade delas mais próxima da sua


De acordo com o dossiê feito pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), lançado no dia 26 de janeiro de 2026, o Brasil continua em primeiro lugar no ranking dos países que mais matam pessoas transsexuais e travestis no mundo, registrando 80 assassinatos no ano de 2025.

Levantamento feito pela Antra, que contabilizou o período de 2017 a 2025, mostrou o estado de São Paulo como o mais letal, registrando 155 mortes. O estudo revelou que a maioria das vítimas é de travestis e mulheres trans, predominantemente jovens, com maior incidência na faixa etária entre 18 e 35 anos, sendo pessoas negras e pardas as principais atingidas. (fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-01/brasil-ainda-e-o-pais-que-mais-mata-pessoas-trans-e-travestis-no-mundo)


Esta é uma iniciativa da Comissão de Inclusão e Pertencimento (CIP) da FOUSP para integrar as datas afirmativas ao nosso cotidiano. O objetivo é dar visibilidade a marcos históricos de luta e diversidade, promovendo um ambiente acadêmico mais acolhedor, consciente e respeitoso para todos.

Texto: Théo Gouvêa Filizzola