Receber flores é um gesto gentil em qualquer outro dia do ano. Mas, no dia 8 de março, elas costumam vir acompanhadas de um “parabéns” que mascara uma realidade brutal. Enquanto as floriculturas lucram, os índices de feminicídio no Brasil e no mundo atingem patamares alarmantes.

Como comemorar quando o lugar mais perigoso para uma mulher ainda é, muitas vezes, a sua própria casa? Como celebrar quando o gênero ainda é um fator de risco para a vida?

É inegável que avançamos. Nossas avós não podiam votar; nossas mães, muitas vezes, não podiam trabalhar sem autorização. Conquistamos espaços na política, na ciência e no mercado de trabalho. Mas essas vitórias, embora fundamentais, são apenas a superfície. É urgente irmos além das conquistas.

A igualdade real não está apenas na lei, mas no cotidiano. Está na divisão justa das tarefas domésticas e do cuidado com os filhos. Está no fim da disparidade salarial entre homens e mulheres que ocupam o mesmo cargo. Está no direito de ir e vir sem medo de assédio ou violência.

Os homens devem passar de espectadores a aliados. A valorização e o empoderamento feminino não são uma “pauta de mulher”. É uma pauta da sociedade. Não precisamos que os homens nos “ajudem” ou nos deem flores; precisamos que eles se tornem parte ativa desse processo reflexivo. Ser um aliado significa ouvir mais do que falar, compreender dores que ele próprio não experimenta e ter coragem dequestionar o círculo de amigos, interrompendo piadas machistas ou comportamentos abusivos de outros homens. Significa assumir responsabilidades e dividir a carga mental e física da vida comum, sem esperar ser aplaudido por “fazer o mínimo”.

Assim, convidamos todas e todos à reflexão

8 de março não é um “Dia das Mães” fora de época. É um dia de resistência. Que hoje cada mulher se lembre de que sua voz importa, sua presença transforma e sua liberdade não é concessão de ninguém, mas seu direito. As flores podem até ser bonitas, mas o que realmente precisamos cultivar é respeito, dignidade e igualdade. A nossa maior conquista não será um buquê, mas o dia em que nenhuma de nós falte por ser quem é.

Maria Cristina Deboni (Vice-Diretora da FOUSP) e Marília Trierveiler Martins (Vice-presidente da Comissão de Inclusão e Pertencimento)

Aproveitamos esta mensagem para convidar todas as pessoas da FOUSP a salvarem a data de 18 de março, às 17 horas, para participarem do lançamento da iniciativa FOUSP por Elas.