Celebrado em junho, o Mês do Orgulho LGBTQIA+ é um período marcado pela visibilidade, pela celebração e também pela reafirmação de direitos. Dentro da universidade, esse momento ganha novos significados a partir das vivências dos próprios estudantes.

Na Universidade de São Paulo (USP), coletivos como o PoliPride, da Escola Politécnica, e o Camaleoa, da Escola de Comunicações e Artes (ECA), atuam diretamente nesse processo. A partir das entrevistas com integrantes desses grupos, é possível compreender como se dá a experiência de pessoas LGBTQIA+ no ambiente universitário hoje.

Entre avanços e vivências no cotidiano

A vivência de pessoas LGBTQIA+ na USP, segundo os relatos, não é única, ela varia bastante dependendo do instituto, do curso e das relações que se estabelecem dentro desses espaços. Em alguns ambientes, há maior presença e integração de estudantes LGBTQIA+, enquanto em outros a convivência ainda se dá em um contexto mais marcado por padrões heteronormativos.

De forma geral, há o reconhecimento de avanços importantes. A possibilidade de se expressar com mais liberdade, a presença de professores mais abertos ao diálogo e o fortalecimento de coletivos são fatores que contribuem para uma experiência universitária mais acolhedora do que em anos anteriores.

Ao mesmo tempo, os estudantes apontam que muitas situações ainda acontecem de forma sutil. Não se trata necessariamente de episódios explícitos de discriminação, mas de dinâmicas em que a pessoa LGBTQIA+ não se sente plenamente incluída ou representada, seja em grupos sociais, atividades acadêmicas ou espaços de convivência.

Coletivos, pertencimento e redes de apoio

É nesse contexto que os coletivos se consolidam como estruturas essenciais dentro da universidade. Mais do que promover eventos, eles funcionam como espaços de escuta, acolhimento e construção de comunidade.

No PoliPride, essa função aparece de forma muito clara. Em um ambiente considerado exigente e, muitas vezes, mais tradicional, o coletivo se torna um ponto de apoio para estudantes que buscam não apenas representatividade, mas também convivência e identificação no dia a dia. A troca de experiências, o apoio emocional e até mesmo as afinidades cotidianas ajudam a fortalecer vínculos e criar um senso de pertencimento.

O coletivo também organiza a Semana de Diversidade da Escola Politécnica (SEDEP), seu principal evento anual, que ao longo de uma semana reúne atividades como rodas de conversa, palestras e debates sobre diferentes pautas relacionadas à diversidade, mobilizando estudantes e ampliando o diálogo e a visibilidade da comunidade LGBTQIA+ dentro da Poli.

Já o Camaleoa surge, e ressurge, a partir de uma necessidade semelhante. Criado inicialmente por estudantes da ECA, o coletivo passou por um período de inatividade e foi retomado recentemente por alunos que sentiram a falta de um espaço estruturado para acolhimento e discussão.

Esse processo de retomada partiu da percepção de que, apesar da presença de estudantes LGBTQIA+ no instituto, ainda havia a necessidade de fortalecer os espaços de escuta e integração, criando oportunidades para que essas vozes fossem mais visíveis dentro da universidade.

Além dos encontros e eventos, os coletivos também atuam como redes de apoio contínuas, seja por meio de grupos, atividades culturais ou ações dentro da própria universidade.

Representatividade e desafios atuais

Os entrevistados apontam que a representatividade LGBTQIA+ tem avançado nos últimos anos, especialmente quando comparada a gerações anteriores. Hoje, há mais presença em diferentes espaços acadêmicos, culturais e midiáticos, o que contribui para ampliar referências e possibilidades de identificação.

Esse avanço, no entanto, ainda é percebido como desigual. Muitas vezes, a representatividade aparece de forma pontual ou concentrada em determinados contextos, sem alcançar de maneira ampla todos os espaços.

Além disso, os desafios enfrentados pela comunidade LGBTQIA+ não se limitam ao ambiente universitário. Eles estão diretamente relacionados a questões sociais mais amplas, como acesso, permanência e reconhecimento.

Dentro desse cenário, as pautas relacionadas à população trans são destacadas como uma das principais demandas atuais. A necessidade de ampliar o acesso à universidade, garantir permanência e promover respeito às identidades aparece como um ponto central nas falas dos coletivos.

“A representatividade está melhorando, mas ainda pode avançar.”
— Laura Maciel, PoliPride

Mês do Orgulho: celebração, luta e reafirmação

Para os coletivos, o Mês do Orgulho carrega um significado que vai além da celebração. Ele é visto como um momento de reafirmação da existência, das conquistas e também das pautas que ainda precisam avançar.

As atividades realizadas nesse período, como eventos, semanas temáticas e participação em manifestações, refletem esse equilíbrio entre celebração e mobilização. Ao mesmo tempo em que se reconhecem os avanços, também se reforça a importância da continuidade das discussões ao longo de todo o ano.

“Eu acho que o mês do orgulho é um momento muito importante de união, mas também de luta pela nossa comunidade.”
— Heloísa, Camaleoa

Uma mensagem para quem está chegando

Para estudantes LGBTQIA+ que estão ingressando na universidade, os coletivos reforçam a importância de buscar espaços de pertencimento e de se aproximar de iniciativas que promovam acolhimento.

A universidade é descrita como um espaço de descoberta, onde é possível construir novas relações, desenvolver a própria identidade e experimentar formas de expressão com mais liberdade. Nesse processo, os coletivos aparecem como pontos de apoio importantes.

No PoliPride, a mensagem é de que não há necessidade de seguir expectativas externas: a universidade pode ser um espaço onde cada pessoa pode simplesmente ser quem é, encontrando apoio em quem compartilha vivências semelhantes e construindo sua trajetória com mais segurança.

Já o Camaleoa reforça que ninguém precisa passar por esse processo sozinho. O coletivo se coloca como um espaço aberto, onde estudantes podem encontrar acolhimento, compartilhar experiências e construir, junto com outras pessoas, um ambiente mais integrado dentro da universidade.


Texto: Maria Eduarda Kise