Pioneira na Odontologia do Esporte no Brasil, a Profa. Dra. Neide Pena Coto, docente do Departamento de Cirurgia, Protese e Traumatologia Maxilofaciais, detalha a relação íntima entre saúde bucal e desempenho de atletas

Graduada em Odontologia pela Universidade Metodista de São Paulo (1989),Pós graduada em Ortodontia, Ortopedia Funcional dos Maxilares e Prótese Bucomaxilofacial. Mestrado em Prótese Buco Maxilo Facial pela Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo, Doutorado em Materias Dentários, pela Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo. Professora Livre Docente do Departamento de Cirurgia, Prótese e Traumatologia Maxilo Faciais da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo, Disciplinas de Prótese Buco Maxilo Facial e Odontologia do Esporte. Pertencente do Grupo de Pesquisa em Odontologia Desportiva do CNPq. Coordenadora do Laboratório de Pesquisa em Odontologia do Esporte e Biomecânica da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo – LAPOEBI/FOUSP. Especialista em Odontologia do Esporte pelo Conselho Federal de Odontologia-CFO.
A trajetória da Profa. Dra. Neide Pena Coto, recentemente tornada titular de uma das disciplinas da ODC, é marcada por uma combinação de persistência acadêmica e uma visão humanizada da profissão. De babá durante os anos de graduação a referência nacional em sua área, sua carreira reflete o desenvolvimento de disciplinas que hoje são fundamentais para o esporte.
O Pioneirismo na Odontologia do Esporte
A introdução da Odontologia do Esporte na FOUSP começou a ganhar forma em 2002, consolidando-se com a abertura de disciplinas optativas em 2006. Segundo a docente, a área vai muito além do tratamento de cáries em atletas: trata-se de entender como a saúde bucal interfere diretamente na fisiologia do corpo.
Respiração Bucal e Postura
Um dos pontos centrais de suas pesquisas é o impacto da respiração bucal no desempenho esportivo. “A respiração bucal interfere muito na postura”, explica a docente, ressaltando que essa condição compromete o equilíbrio e a produção de energia (ATP). O ar que entra pela boca não é filtrado nem aquecido adequadamente, sobrecarregando o pulmão e desviando energia que deveria ser utilizada na força muscular.
Além disso, a professora alerta para os riscos do uso de isotônicos e suplementos ácidos, que podem causar erosão dentária e hipersensibilidade, especialmente quando combinados com a diminuição do fluxo de saliva durante o exercício.
Protetores Bucais no Esporte
No esporte, um choque facial pode carregar uma energia devastadora, capaz de fraturar dentes e ossos. Para mitigar esses danos, a especialidade utiliza a física e a anatomia para criar barreiras eficazes. De acordo com a docente, o segredo de um bom protetor bucal não reside apenas na cobertura dos dentes, mas na sua capacidade de dissipar e absorver forças.
A regra dos 50%: Absorção e Dissipação
O material padrão-ouro para a confecção desses dispositivos ainda é o EVA (Etil Vinil Acetato). Pesquisas recentes realizadas em parceria com instituições do Rio de Janeiro comprovaram que, até o momento, não existe material em fluxo digital (3D) que substitua a eficácia do EVA.
A funcionalidade do EVA baseia-se em um equilíbrio de forças: ao receber um impacto, o material absorve 50% da energia de deformação. A outra metade da energia não é eliminada, mas sim dissipada para as extremidades do dispositivo. Por essa razão, o desenho do protetor é estratégico. “As extremidades devem ser levadas até as zonas de resistência da face”, explica a docente. O vetor da força é direcionado para a região pré-tragus (próxima à orelha), uma área anatomicamente preparada para suportar pressões, evitando que o impacto se concentre apenas nos dentes anteriores.
Para que a dissipação ocorra sem causar danos colaterais, o protetor deve seguir critérios técnicos rigorosos:
• Espessura: deve ter entre 3 a 4 milímetros para garantir a proteção contra fraturas ósseas e dentárias
• Extensão: O dispositivo deve cobrir até o segundo molar. O terceiro molar (dente do siso) é excluído porque sua região (tuber) é considerada uma zona de fragilidade da face e não deve receber os vetores de força dissipada
• Adaptação: Deve terminar a 3 mm do sulco gengival na parte externa e a 10 mm da linha marginal na parte interna

O perigo dos modelos pré-fabricados
Um erro comum entre atletas é o uso de protetores pré-fabricados, conhecidos como “aquece e morde”. Além de dificultarem a fala e a hidratação, esses modelos não oferecem a adaptação necessária para a dissipação correta das forças.
“O protetor bucal deve ser individualizado, confeccionado sobre um modelo de gesso ou 3D do próprio atleta”
Profa. Dra. Neide Pena Coto
Modelos mal adaptados podem, inclusive, aumentar o risco de lesões em vez de preveni-las, pois não mantêm a espessura uniforme necessária para a absorção da energia.
Além da proteção: Postura e Respiração
Embora a maioria dos protetores seja feita para o arco superior, em algumas modalidades, como nos esportes de inverno, utilizam-se dispositivos no arco inferior. Nestes casos, o objetivo principal muda da proteção direta para o ajuste da postura mandibular.
Ao posicionar a mandíbula levemente para frente, o dispositivo ajuda a manter a postura do pescoço e aumenta a passagem de ar na região posterior, facilitando a respiração do atleta sob esforço extremo. No entanto, a docente esclarece que é um erro afirmar que o protetor aumenta o desempenho atlético por si só; ele apenas otimiza condições fisiológicas pré-existentes.
Texto: Théo Gouvêa Filizzola

