Formada há 30 anos pela FOUSP, a Profa. Dra. Simone Rennó Junqueira iniciou sua carreira no setor privado, atuando, posteriormente, em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) em São Paulo, onde surgiu seu interesse pela Saúde Coletiva, que muito foi influenciado pelo Prof. Dr. Paulo Capel Narvai, docente da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Profa. Dra. Simone Rennó Junqueira – Foto: Carômetro FOUSP

Com uma trajetória consolidada na Universidade de São Paulo (USP), graduou-se em Odontologia (1995), tornando-se mestre em Deontologia e Odontologia Legal (2001) e doutora em Saúde Pública (2004). Sua experiência prática inclui a atuação direta no Sistema Único de Saúde (SUS), o que fundamenta sua visão sobre o setor público.
Atualmente, ocupa o cargo de professora associada no Departamento de Odontologia Social da FOUSP. No campo da gestão acadêmica e fomento à saúde, coordenou o projeto Pró-Saúde PET-Saúde USP-Capital (2012-2014) e liderou, entre 2017 e 2019, o Mestrado Profissional em Formação Interdisciplinar em Saúde — programa que integra as faculdades de Odontologia, Saúde Pública, Enfermagem e o Instituto de Psicologia.

Saúde Bucal Coletiva e a consolidação da PNSB

A Saúde Coletiva na Odontologia brasileira transcendeu a aplicação de técnicas clínicas isoladas para se tornar um eixo estruturante de cidadania e direito social. Atualmente, o campo da saúde pública vive um marco histórico com a transformação do Brasil Sorridente em uma política de Estado, garantindo a continuidade de ações que visam o acesso universal e a equidade no cuidado.

Foto: https://economiaideal.com/como-se-inscrever-no-programa-brasil-sorridente/

Segundo a docente, a organização do sistema público deve ser pautada pela resolução de demandas reais da população. O arsenal de atuação no Sistema Único de Saúde (SUS) divide-se primordialmente entre diferentes níveis de atenção e complexidade:

  • Atenção Básica (Unidades Básicas de Saúde – UBS): É a porta de entrada do sistema. O cirurgião-dentista atua com ações de promoção, prevenção e clínica geral (restaurações, raspagens e urgências), atendendo desde crianças até idosos de forma integrada à equipe multidisciplinar.
  • Centros de Especialidades Odontológicas (CEO): Representam o suporte para casos de maior complexidade. São o destino de referência para tratamentos de endodontia, periodontia, cirurgia oral menor, diagnóstico e atendimento a pacientes com necessidades especiais.
  • Urgência e Gestão: As Unidades de Pronto Atendimento (UPA) garantem o suporte 24h para traumas e dor aguda, enquanto as áreas de vigilância sanitária, auditoria e coordenação permitem que o dentista atue no planejamento estratégico e administrativo do sistema.

“A política ela existe pra gente resolver problemas”.

Simone Rennó Junqueira

A institucionalização da PNSB como Política de Estado

A Política Nacional de Saúde Bucal (PNSB), amplamente conhecida como Brasil Sorridente, consolidou-se como um marco na organização dos serviços odontológicos no país ao evoluir de diretrizes estabelecidas em 2004 para uma política de Estado em 2023. Essa mudança fundamental ocorreu com a alteração da Lei Orgânica da Saúde, que inseriu a saúde bucal como um direito das pessoas e dever do Estado, garantindo a continuidade das ações e o financiamento independentemente de mudanças na gestão governamental.

“Isso garante que, independente de qual gestão venha assumir, você torna isso uma política de estado, com mecanismos de financiamento e manutenção dos serviços”.

Adicionalmente, a fluoretação das águas de abastecimento destaca-se como uma ação de grande alcance coletivo. Com 50 anos de regulamentação federal, a medida é considerada um dos marcos mais eficazes e de baixo custo para o controle da cárie em massa no país

Gestão, superação de desafios e o futuro

Diante da complexidade do setor público, a Profa. Dra. Simone enfatiza que as competências técnicas exigidas do cirurgião-dentista são as mesmas do setor privado: excelência clínica e embasamento científico. Contudo, a atuação no SUS demanda uma sensibilidade extra para o contexto socioeconômico e cultural da comunidade.

O desafio imposto por questões logísticas, como a manutenção de equipamentos ou a burocracia das licitações, é reconhecido pela docente como parte da rotina administrativa. Entretanto, ela ressalta que o setor público tem avançado na modernização de insumos e na organização de redes de referência.

Quanto ao papel do profissional na gestão, a docente destaca a importância da formação contínua em saúde coletiva e administração pública para aqueles que desejam influenciar as decisões políticas.

Perspectiva de vida e compromisso social

A trajetória da Prof. Dra. Simone, que concilia a docência na USP com a maternidade de três filhos e uma carreira dedicada ao setor público, reflete uma busca por equilíbrio e propósito. Para ela, o serviço público não deve ser visto como benevolência, mas como a preservação de um bem que pertence a todos.

“O setor público é extremamente gratificante porque o público somos todos nós. Então, tudo que eu gostaria para mim, eu também desejo pro próximo”.

Dessa forma, a Saúde Bucal Coletiva no Brasil consolida-se através de lutas históricas e avanços legislativos que permitem diagnósticos precisos e intervenções planejadas, garantindo que a Odontologia deixe de ser um privilégio para se tornar, de fato, um direito universal.

Simone Junqueira e Edson Hilan Gomes de Lucena (coordenador nacional de saúde bucal) entre os diretores da Liga de Saúde Bucal Coletiva – LISbuCo, Anny Vitori Ferraz e Giovanni Gianoni de Oliveira.
Simone Junqueira (3ª da esquerda para a direita) e Mariângela Bitar (docente do curso de fonoaudiologia), estudantes e profissionais da rede, em atividade relacionada ao projeto de gestão e assistência, voltado à política de formação em saúde. FOUSP.

Esta é uma iniciativa da Comissão de Inclusão e Pertencimento (CIP) da FOUSP para integrar as datas afirmativas ao nosso cotidiano. O objetivo é dar visibilidade a marcos históricos de luta e diversidade, promovendo um ambiente acadêmico mais acolhedor, consciente e respeitoso para todos.

Texto: Maria Eduarda Kise