O câncer bucal representa um importante problema de saúde pública, frequentemente associado a diagnóstico tardio e altas taxas de complicações. Apesar de, na maioria dos casos, apresentar sinais clínicos iniciais detectáveis, a doença ainda é identificada em estágios avançados, o que compromete o prognóstico e amplia a complexidade do tratamento. Nesse cenário, a atenção à saúde bucal e o acompanhamento odontológico regular assumem papel fundamental na identificação precoce de lesões e na redução dos impactos da doença.
Para aprofundarmos esse tema, convidamos a Profa. Dra. Camila de Barros Gallo, docente do Departamento de Estomatologia.

Formou-se em Odontologia pela própria instituição em 2004, onde também concluiu o mestrado (2008) e o doutorado (2012) em Diagnóstico Bucal, com estágio de doutorado (PDEE) na Universidade do País Basco (UPV/EHU). Integra o Centro de Diagnóstico Oral da Disciplina de Estomatologia Clínica da FOUSP e atua como coordenadora da Liga Interdisciplinar das Neoplasias Bucais, além de organizar o Curso de Verão em Estomatologia Clínica. Sua atuação concentra-se na área de Estomatologia, com ênfase em doenças bucais como ulcerações aftosas recorrentes, síndrome da ardência bucal, líquen plano oral, carcinoma epidermoide bucal e nas alterações decorrentes do tratamento oncológico.
Segundo a docente, o entendimento atual do câncer bucal envolve tanto perfis epidemiológicos já consolidados quanto novos grupos que vêm sendo observados na prática clínica. O perfil clássico: homens acima dos 50 anos, fumantes e etilistas, ainda é predominante, mas não exclusivo.
Diagnóstico clínico e sinais de alerta
O diagnóstico do câncer bucal permanece essencialmente clínico, exigindo atenção a sinais muitas vezes discretos, pois suas manifestações iniciais podem ser sutis. Por essa razão, é importante manter atenção em alguns sintomas, como:
- Úlceras ou feridas na boca que não cicatrizam em até duas semanas
- Lesões indolores (consideradas ainda mais preocupantes)
- Manchas brancas na mucosa oral
- Manchas avermelhadas na mucosa oral
A docente explica que a detecção precoce é um fator determinante para o tratamento eficaz, uma vez que a identificação da doença em estágios iniciais amplia significativamente as possibilidades de tratamento e melhora o desfecho clínico. Dessa forma, o acompanhamento odontológico regular e o reconhecimento desses sinais constituem elementos essenciais para a redução do impacto do câncer bucal.
“A odontologia ajuda em todas as etapas, desde a preparação até o acompanhamento após o tratamento”.
Camila de Barros Gallo.
Antes do início das terapias, o preparo da cavidade oral visa reduzir o risco de complicações. Durante o tratamento, o cirurgião-dentista atua no controle de efeitos adversos, como xerostomia e infecções. Já no período pós-tratamento, o acompanhamento contínuo é essencial para reabilitação funcional e monitoramento de possíveis recidivas.
Impactos do tratamento oncológico e linhas de pesquisa
A abordagem do câncer bucal não se restringe ao diagnóstico, estendendo-se às repercussões do tratamento oncológico. Nesse sentido, a professora destaca diversas linhas de pesquisa voltadas à compreensão dessas alterações.
Entre elas, destacam-se os estudos sobre alterações no paladar após radioterapia, que têm demonstrado caráter possivelmente permanente, impactando diretamente os hábitos alimentares dos pacientes. A busca por sabores mais intensos pode levar ao consumo excessivo de açúcar ou sal, com implicações sistêmicas relevantes.
Outras investigações incluem a análise de materiais restauradores mais adequados para dentes irradiados, o estudo da osteorradionecrose, que investiga a complicação óssea associada à radioterapia, e a avaliação de possíveis fatores de risco ainda não totalmente estabelecidos, como o fumo passivo em pacientes jovens.
Perspectiva preventiva e educação em saúde
A ampliação do conhecimento da população é uma das principais estratégias para reduzir o impacto do câncer bucal. Campanhas de conscientização e ações educativas têm papel fundamental ao promover o reconhecimento precoce dos sinais da doença e incentivar o autocuidado. Nesse contexto, a educação em saúde, especialmente no ambiente escolar, destaca-se como ferramenta essencial para formar indivíduos mais atentos às alterações da cavidade oral e mais conscientes sobre quando buscar atendimento.
Outra iniciativa relevante é a capacitação de agentes comunitários de saúde, que atuam diretamente junto à população e podem identificar precocemente indivíduos em risco por meio da busca ativa. Aliada a essas ações, a realização de consultas regulares com o cirurgião-dentista e o acompanhamento em saúde são determinantes para o diagnóstico precoce e para melhores desfechos clínicos.
“A prevenção primária, baseada em informação e educação, é essencial para que o paciente reconheça sinais iniciais e saiba quando procurar atendimento”, conclui a docente.

