Muito além de comprometer a saúde da boca, a doença periodontal tem sido associada a diferentes condições sistêmicas, tornando-se um tema cada vez mais presente nas pesquisas científicas e na prática clínica. Embora a relação com algumas doenças ainda esteja em investigação, as evidências mostram que a inflamação da gengiva pode repercutir em diferentes partes do organismo.

Para aprofundarmos esse tema, conversamos com o Prof. Dr. Cláudio Mendes Pannuti, do Departamento de Estomatologia, que explicou como a ciência compreende atualmente a relação entre a doença periodontal e a saúde geral, quais associações apresentam evidências mais robustas e por que o diagnóstico precoce continua sendo fundamental para evitar complicações.

Prof. Dr. Cláudio Mendes Pannuti – Foto: Carômetro

Professor Titular de Periodontia da FOUSP, onde atua no Programa de Pós-Graduação em Ciências Odontológicas. Desenvolve pesquisas nas áreas de epidemiologia, ensaios clínicos e revisões sistemáticas, com foco em fatores de risco para doenças periodontais e peri-implantares, pacientes com necessidades especiais e estratégias de tratamento periodontal. Coordenador do Curso de Especialização em Periodontia da FUNDECTO, revisor ad-hoc de periódicos internacionais como Journal of Dental Research, Journal of Clinical Periodontology e Journal of Periodontology e membro do Editorial Board do Brazilian Oral Research e assessor estatístico do Clinical Oral Implants Research.

Uma inflamação que vai além da boca

A doença periodontal é uma inflamação que afeta os tecidos de sustentação dos dentes. Nos últimos anos, ela passou a ser estudada também por sua possível relação com diferentes doenças sistêmicas.

O docente explica que bactérias presentes nas bolsas periodontais podem alcançar a corrente sanguínea, assim como mediadores inflamatórios produzidos durante a doença, como a interleucina 1 beta, a interleucina 6 e o fator de necrose tumoral alfa. Esses mecanismos ajudam a compreender por que a periodontite passou a ser investigada também sob a perspectiva da saúde sistêmica.

Estudos apontam associações entre a doença periodontal e enfermidades cardiovasculares, respiratórias, doença de Alzheimer e complicações na gestação, como parto prematuro. O professor ressalta, porém, que a maior parte dessas relações ainda representa uma associação observada em pesquisas científicas. Isso significa que, até o momento, não há evidências suficientes para afirmar que a periodontite seja a causa direta dessas doenças, o que exige cautela na interpretação dos resultados.

O interesse por essas associações também passou a envolver outras áreas da odontologia. Segundo o Prof. Dr. Cláudio, especialidades como a Endodontia já investigam se processos inflamatórios de origem bucal podem apresentar relações semelhantes com doenças sistêmicas.

Diabetes concentra as evidências mais consistentes

Entre todas as condições estudadas, o diabetes mellitus reúne as evidências científicas mais robustas sobre sua relação com a doença periodontal.

Essa conexão ocorre nos dois sentidos. Pessoas com diabetes mal controlado apresentam maior risco de desenvolver periodontite, enquanto a inflamação periodontal pode contribuir para um pior controle da glicemia.

O professor explica que esse processo está relacionado ao aumento de mediadores inflamatórios, principalmente o fator de necrose tumoral alfa, que favorece a resistência à insulina e dificulta a utilização da glicose pelo organismo.

Ensaios clínicos mostram que o tratamento periodontal promove redução dos níveis de hemoglobina glicada, indicador utilizado para acompanhar o controle do diabetes. Embora essa diminuição seja considerada modesta, ela possui relevância clínica e levou entidades como a American Diabetes Association e a Federação Europeia de Periodontia a recomendarem que a saúde periodontal faça parte do cuidado oferecido aos pacientes diabéticos.

Importância de observar os primeiros sinais

Outro ponto destacado é que a doença costuma evoluir de forma silenciosa. Como normalmente não provoca dor nas fases iniciais, muitos pacientes procuram atendimento apenas quando o quadro já está avançado.

O primeiro sinal costuma ser o sangramento da gengiva durante a escovação ou o uso do fio dental. Ao contrário do que muitos acreditam, esse sintoma não é consequência da força aplicada na escovação, mas da presença de uma inflamação, que pode indicar desde uma gengivite até o início de uma periodontite.

Com a evolução da doença, podem surgir retração gengival, dando a impressão de que os dentes estão mais compridos, mobilidade dentária e, nos casos mais graves, abscessos acompanhados de dor e presença de pus. Diante de qualquer um desses sinais, a orientação é procurar um cirurgião-dentista ou periodontista para avaliação e tratamento.

Mais do que uma questão de saúde bucal

Além das possíveis repercussões sistêmicas, a doença periodontal já representa, por si só, um importante problema de saúde. Ela pode comprometer a mastigação, favorecer a perda dos dentes e afetar diretamente a autoestima e a socialização dos pacientes.

Para o docente, esse é um dos principais motivos para reforçar a importância do diagnóstico precoce. Identificar a doença ainda nas fases iniciais permite diferenciar uma gengivite de uma periodontite e iniciar o tratamento antes que ocorram danos mais severos.

Embora as pesquisas sobre a relação entre a doença periodontal e outras condições de saúde continuem avançando, uma mensagem já está consolidada: cuidar da gengiva não significa apenas preservar os dentes, mas também investir na qualidade de vida e em um cuidado mais amplo com a saúde.


Texto: Maria Eduarda Kise