Em celebração ao Dia das Crianças, convidamos a Profa. Dra. Daniela Prócida Raggio, do Departamento de Ortodontia e Odontopediatria, para falar sobre a importância dos cuidados com a saúde bucal desde os primeiros anos de vida e como eles contribuem para a qualidade de vida e o desenvolvimento das crianças e jovens.

Professora Associada de Odontopediatria da FOUSP, graduada pela UNIP e com Mestrado e Doutorado em Ciências Odontológicas pela USP. Possui experiência em pesquisa clínica, síntese de evidências e mínima intervenção no tratamento da cárie, com destaque para ART, Hall Technique e materiais dentários. Foi Editora-Emérita do International Journal of Paediatric Dentistry e é Bolsista de Produtividade em Pesquisa Nível 2 do CNPq.

Ao longo de sua trajetória, a docente destaca mudanças na forma de atender esse público, com maior atenção às técnicas de mínima intervenção e ao manejo do comportamento infantil. Entre elas está o tratamento restaurador atraumático, foco de sua pesquisa, que busca reduzir o desconforto durante o procedimento e, em determinadas situações, pode ser realizado sem broca, anestesia ou isolamento absoluto. Também houve uma mudança na forma de conduzir o atendimento, com maior respeito à dor, ansiedade, medo e às necessidades individuais da criança.

A cárie dentária continua sendo um dos principais problemas de saúde bucal na infância, especialmente entre crianças em situações de maior vulnerabilidade socioeconômica. A cárie pode alterar questões de nutrição, o estabelecimento da oclusão correta, deglutição, fala, etc. Além dela, a hipomineralização molar-incisivo (HMI), que é uma má formação do esmalte da porção mais externa do dente, também exige atenção, por poder causar sensibilidade e dificultar a higienização. Essa condição acomete os incisivos e molares permanentes. Por isso, o acompanhamento odontológico desde os primeiros anos permite acompanhar a erupção dos dentes, identificar alterações e orientar os cuidados necessários em cada fase.

A higiene deve começar com o surgimento do primeiro dente, com escova dental e creme dental fluoretado com pelo menos 1.100 ppm de flúor. O uso do fio dental também é importante, assim como a atenção ao consumo de açúcar. Segundo a professora, mais do que a quantidade, é necessário observar a frequência de ingestão ao longo do dia, buscando reduzir as exposições e, quando houver consumo, priorizá-lo próximo às refeições.

Nesse processo, a orientação às famílias também precisa considerar a realidade de cada uma. A Profa. Dra. Daniela destaca a utilização da entrevista motivacional, que busca construir, junto aos responsáveis, mudanças que possam ser incorporadas à rotina, em vez de apenas estabelecer uma lista de recomendações. “Ao invés de apenas cobrar, é mais importante tentar modificar e ver onde a família consegue implementar o hábito”, explica.

Esse cuidado também envolve compreender que cada família possui uma rotina e possibilidades diferentes. Por isso, as mudanças devem ser construídas de maneira conjunta, sem transformar as orientações em uma fonte de cobrança ou frustração. O acompanhamento também deve se adaptar às diferentes fases da infância e adolescência, considerando mudanças nos hábitos de higiene e alimentação e possíveis sinais na cavidade bucal que indiquem a necessidade de atenção de outros profissionais.

Ao falar sobre o Dia das Crianças, a professora reforça que o cuidado deve ir além da saúde bucal. “É nossa função proteger a infância. Espero que todas as crianças tenham uma infância amorosa, cuidadosa e com muito afeto, para que possam florescer e se desenvolver sem preconceitos e com muito carinho.”