O uso de cigarros eletrônicos tem se consolidado como um fenômeno crescente nas últimas décadas, especialmente entre adolescentes e adultos jovens. Inicialmente desenvolvidos com a proposta de auxiliar na cessação do tabagismo convencional, esses dispositivos passaram a ocupar um espaço próprio no comportamento de consumo, levantando importantes questionamentos sobre seus efeitos à saúde.

Para aprofundar o tema, conversamos com o Prof. Dr. Cláudio Mendes Pannuti, docente do Departamento de Estomatologia, que destaca que, apesar da percepção popular, os cigarros eletrônicos não são isentos de riscos.

Prof. Dr. Cláudio Mendes Pannuti – Foto: Carômetro

Graduado em Odontologia pela FOUSP, com Mestrado e Doutorado em Periodontia, é atualmente Professor Titular da instituição. Atua no Programa de Pós-Graduação em Ciências Odontológicas, onde já foi coordenador, e hoje preside a Comissão de Pós-Graduação, além de ser Chefe do Departamento de Estomatologia.

Também coordena curso de especialização, integra comissões acadêmicas da USP e atua como revisor de importantes periódicos internacionais. Possui experiência em epidemiologia e pesquisas clínicas, com foco em fatores de risco para doenças periodontais, pacientes com necessidades especiais e efeitos da cessação do tabagismo.

Segundo o professor, esses dispositivos podem conter nicotina e, por isso, reproduzem sensações semelhantes às do cigarro tradicional. No entanto, evidências científicas têm demonstrado associação entre seu uso e diversos agravos à saúde.

Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que, em 2021, cerca de 82 milhões de pessoas utilizavam cigarros eletrônicos em todo o mundo. No Brasil, estima-se que aproximadamente 6,7% da população adulta das capitais já tenha feito uso desses dispositivos ao menos uma vez, o que representa cerca de 2,4 milhões de indivíduos.

Parte desse crescimento, segundo o docente, está relacionada à ideia equivocada de que esses produtos seriam menos prejudiciais quando comparados ao cigarro convencional. Além disso, estratégias da indústria, como a ampla oferta de sabores e o direcionamento ao público jovem, contribuem para o aumento da adesão.

Composição e funcionamento dos dispositivos

Do ponto de vista técnico, os cigarros eletrônicos funcionam a partir do aquecimento de um líquido, conhecido como e-líquido, que gera um aerossol inalado pelo usuário.

Esse líquido pode conter nicotina, aromatizantes e diversas substâncias químicas, sendo geralmente composto por propilenoglicol e glicerol. De acordo com o professor, o aquecimento em altas temperaturas pode desencadear reações químicas capazes de formar compostos potencialmente tóxicos e até carcinogênicos.

Impactos sistêmicos e na saúde bucal

No âmbito sistêmico, já existem evidências que associam o uso desses dispositivos a alterações respiratórias e cardiovasculares.

Na Odontologia, embora os estudos ainda estejam em desenvolvimento, diversos achados clínicos vêm sendo relatados. Entre eles, destacam-se lesões na mucosa oral, alterações linguais, lesões ulcerativas, queimaduras intraorais, estomatite nicotínica, língua pilosa e até traumas decorrentes de falhas nos dispositivos, como explosões.

Limitações dos estudos atuais

Um ponto crítico destacado pelo especialista diz respeito ao perfil dos participantes incluídos nas pesquisas. Muitos estudos envolvem ex-fumantes ou usuários duplos, ou seja, indivíduos que utilizam simultaneamente cigarros convencionais e eletrônicos.

“Essa característica dificulta estabelecer com precisão se os efeitos observados são decorrentes do uso atual dos dispositivos eletrônicos ou de exposições anteriores ao tabagismo convencional”.

Novo estudo em população jovem

Diante dessas limitações, um grupo de pesquisa iniciou um estudo voltado para uma população jovem, principal alvo da indústria e, em grande parte, sem histórico prévio de tabagismo.

A pesquisa está em andamento e envolve estudantes de graduação e pós-graduação da USP e de outras instituições da capital. O objetivo é comparar usuários e não usuários de cigarros eletrônicos, buscando identificar possíveis impactos na saúde bucal.

Entre os parâmetros analisados estão a condição gengival, a presença de cárie dentária, alterações no fluxo salivar e o surgimento de lesões na cavidade oral. Além disso, também será avaliado o impacto desses fatores na qualidade de vida relacionada à saúde bucal.

Todos os participantes passam por exame clínico completo e, caso seja identificada alguma alteração, são encaminhados para o tratamento adequado.

Perspectivas e acompanhamento longitudinal

O estudo possui caráter longitudinal prospectivo, com acompanhamento previsto de cinco anos. Esse modelo permitirá observar, ao longo do tempo, o desenvolvimento de possíveis alterações associadas ao uso dos cigarros eletrônicos.

Segundo o docente, esse tipo de abordagem é fundamental para ampliar a compreensão científica sobre os efeitos desses dispositivos, especialmente em uma população que não apresenta histórico de exposição ao cigarro convencional.

Dessa forma, a pesquisa busca contribuir para o avanço do conhecimento na área de Estomatologia, oferecendo evidências mais robustas que possam subsidiar tanto a prática clínica quanto estratégias de saúde pública.


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