Com mais de 35 anos de tradição no atendimento a pacientes com necessidades especiais, o CAPE-FOUSP lidera pesquisas sobre a microbiota oral e implementa estratégias de dessensibilização para reduzir o estresse clínico
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que se manifesta em diferentes níveis de suporte, envolvendo desafios na comunicação, socialização e a presença de comportamentos restritos ou hipersensibilidade sensorial. “No cenário odontológico, o que para muitos é uma consulta de rotina, para o paciente com TEA pode se tornar um ambiente hostil de estímulos sonoros e táteis.” afirma a Profa. Dra. Fabiana Martins e Martins de Oliveira, docente do Departamento de Estomatologia.

A Profa. Dra. Fabiana Martins e Martins de Oliveira é mestre e doutora em patologia bucal pela FOUSP e pós-doutorada em Moléstias infecciosas pela FMUSP, concluído em 2022.
Fez doutorado sanduíche na Divisão de Medicina Oral do Brigham and Women`s Hospital (Harvard University-USA). Habilitada no uso dos lasers de baixa potência (LELO-FOUSP). Tem experiência na área de Odontologia, com ênfase em pacientes especiais, odontologia hospitalar, medicina oral e patologia bucal. Atuando principalmente nos seguintes temas: Pacientes sistemicamente comprometidos, com doenças infectocontagiosas, distúrbios neuropsicomotores e o uso de lasers em Odontologia.
Para reverter esse quadro, a faculdade tem consolidado seu papel na vanguarda do atendimento humanizado. Por meio do CAPE, a instituição une a experiência clínica de décadas com o que há de mais moderno em tecnologias assistivas e infraestrutura adaptada.
O legado do CAPE e a Sala Sensorial
Sob a coordenação da Profa. Dra. Marina Helena Cury Gallottini, docente do Departamento de Estomatologia, o CAPE acumula 35 anos de atuação. Recentemente, uma parceria público-privada entre o centro e a Colgate/LAHOA resultou na inauguração de uma sala sensorial projetada sob as mais rigorosas evidências científicas.
O ambiente conta com luzes baixas, projetores de filmes e música, além de objetos sensoriais. A ideia é que o consultório se adapte ao universo do paciente: se uma criança tem interesse restrito por trens ou dinossauros, o ambiente pode projetar essas imagens para gerar conforto.
“Esses recursos devem ser individualizados. Eles são comprovadamente eficazes para minimizar o estresse frente à consulta odontológica”
Profa. Dra. Fabiana Martins e Martins de Oliveira
Além da clínica, a pesquisa acadêmica avança em áreas complexas, como a investigação da relação entre o microbioma oral e o cérebro em crianças autistas, comparando-as aos seus irmãos neurotípicos.
Estratégias de Manejo: Do “Dizer-Mostrar-Fazer” à Videomodelação
A técnica clássica da odontopediatria “Dizer-Mostrar-Fazer” continua sendo um pilar, mas agora ganha o reforço de ferramentas digitais. Como pacientes com TEA frequentemente apresentam dificuldades com linguagem figurada, a abordagem precisa ser concreta.
Tecnologia Assistiva: O uso de tablets e pistas visuais antecipa o que será feito.
Videomodelação: O envio de vídeos antes da consulta permite que o paciente conheça o som do motorzinho e o ambiente da clínica em sua casa, gerando previsibilidade.
Telessaúde: Consultas remotas para anamnese e triagem evitam idas desnecessárias ao consultório, reduzindo a carga de ansiedade do paciente.
Saúde Bucal e Desafios Clínicos
Embora o TEA não cause alterações orais congênitas, estudos indicam uma prevalência maior de cáries e doenças periodontais nesta população. O motivo é comportamental: a seletividade alimentar (preferência por alimentos cariogênicos) e a resistência à higiene oral devido à hipersensibilidade perioral dificultam a prevenção.
A sedação ou anestesia geral, embora disponíveis, são tratadas como última alternativa. “No CAPE, o princípio é a dessensibilização gradativa. A anestesia é reservada para casos onde não há colaboração após diversas tentativas e as necessidades clínicas são urgentes”, afirma a docente.
A Formação do Novo Cirurgião-Dentista
Para a Profa. Dra. Fabiana, a inclusão da disciplina de Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais (OPNE) como obrigatória na grade da FOUSP reflete uma mudança de postura na graduação. Embora os novos profissionais saiam com mais consciência sobre a neurodiversidade, a instituição reconhece que o “abismo” entre a teoria e a prática ainda existe.
A prática clínica contínua é apontada como o único caminho para que o cirurgião-dentista aprenda a lidar com as crises autísticas e as particularidades sensoriais, garantindo que o aumento da prevalência do TEA na sociedade seja acompanhado por um atendimento digno, técnico e, sobretudo, humano.
Texto: Théo Gouvêa Filizzola


