Publicado em Jornal da APCD

Com o tema “Juntos pela Saúde. Apoie a Ciência”, a Organização Mundial da Saúde reforça o papel da ciência na tomada de decisões em saúde – um princípio que também se aplica à Odontologia e se reflete diretamente na prática clínica e cuidado ao paciente

Apoiar a ciência se traduz na prática clínica, na forma como o Cirurgião-Dentista seleciona, interpreta e aplica a informação antes de transformá-la em conduta
Apoiar a ciência se traduz na prática clínica, na forma como o Cirurgião-Dentista seleciona, interpreta e aplica a informação antes de transformá-la em conduta

Nunca houve tanta informação científica disponível para o Cirurgião-Dentista. Nunca, também, foi tão difícil separar o que orienta a conduta do que apenas a influencia. Nas redes sociais, vídeos com milhares de curtidas disputam atenção com revisões sistemáticas publicadas em periódicos revisados por pares. E no consultório, o paciente chega com certezas formadas fora do alcance de qualquer protocolo clínico.

Nesse cenário, o tema do Dia Mundial da Saúde 2026 — “Juntos pela Saúde. Apoie a Ciência” — deixa de ser um enunciado institucional e passa a dialogar diretamente com a prática clínica.

Para o professor titular da Faculdade de Odontologia de Bauru da USP e pesquisador em metodologia científica, Prof. Dr. Heitor Marques Honório, a resposta começa por desmistificar o que a prática baseada em evidências realmente significa. “Muitos profissionais ainda enxergam a Odontologia Baseada em Evidências como uma teoria distante ou uma tarefa burocrática, mas ela é, na verdade, a maior aliada da nossa decisão clínica. No dia a dia, ela se apoia em um tripé fundamental que une a melhor ciência disponível no momento, a experiência prática acumulada pelo Cirurgião-Dentista e as necessidades e preferências de cada paciente.”

Isso se traduz no consultório, na capacidade de transformar qualquer dúvida clínica em uma pergunta bem estruturada e ainda em saber onde buscar a resposta. “Sabendo exatamente o que procurar, o profissional deixa de depender de opiniões isoladas ou de promessas de marketing e passa a buscar respostas em bases de dados confiáveis, como o PubMed ou a Biblioteca Cochrane. A grande virada de chave acontece quando essa busca por evidências se torna um hábito tão rotineiro e indispensável no consultório quanto a própria esterilização dos nossos instrumentais”, afirma o professor.

Esse modelo, no entanto, ainda encontra barreiras na rotina clínica. O professor associado da Faculdade de Odontologia da USP e pesquisador na área de diagnóstico e tomada de decisão clínica, Prof. Dr. Fausto Medeiros Mendes compartilha do ideal, mas pondera sobre sua viabilidade na realidade atual da profissão.

Para ele, o problema começa antes do consultório e se reflete diretamente na formação dos profissionais. “Um ponto importante sobre a dificuldade de incorporação da Odontologia Baseada em Evidências é a falta de senso crítico, ceticismo e letramento científico da população brasileira de um modo geral, o que obviamente se reflete na formação dos Cirurgiões-Dentistas. Isso deveria ser abordado desde o ensino fundamental e médio e inserido ao contexto odontológico na graduação. A temática da prática de saúde baseada em evidências deveria ser incorporada no currículo de todas as Faculdades de Odontologia desde o início do curso. Mas mesmo grande parte dos docentes não aplica esses conceitos em suas práticas clínicas ou aulas.”

Esse vácuo na formação tem um efeito claro: os poucos docentes que defendem a Odontologia Baseada em Evidências acabam sendo vistos como pedantes, donos da verdade — o que os distancia ainda mais dos clínicos e alimenta a percepção equivocada de que a abordagem não é aplicável à prática clínica. “Isso, no entanto, é uma grande falácia, uma vez que o paradigma se baseia em perguntas clínicas relevantes e reais e na proposta de soluções factíveis de serem realizadas na maior parte dos consultórios odontológicos.”

Entre o padrão ouro e o modismo passageiro

Saber onde buscar informação não garante, por si só, uma decisão clínica segura. É a capacidade de avaliá-la que distingue uma conduta fundamentada de um entusiasmo passageiro. “Um jeito simples de avaliar a confiabilidade de uma informação é pensar na pirâmide de evidências: lá no topo estão as revisões sistemáticas e metanálises, que são o padrão ouro e nos dão muito mais segurança para mudar uma conduta no consultório. Já os relatos de caso ou opiniões de especialistas, que ficam na base da pirâmide, servem para nos dar ideias, mas sozinhos não devem ditar um tratamento por terem um risco maior de viés. É importante também olhar se o trabalho foi revisado por outros cientistas e se não há conflitos de interesse por trás dos dados”, explica o Prof. Dr. Heitor. Ele reforça que, “no fim das contas, entender um pouco de metodologia e estatística é a melhor proteção que o profissional tem para conseguir distinguir o que é uma inovação sólida de um modismo passageiro.”

O Prof. Dr. Fausto reconhece esse caminho como o ideal, mas pondera sobre sua viabilidade na realidade atual da profissão. “Uma situação ideal seria os próprios profissionais refletirem sobre as questões clínicas relevantes e buscar as melhores evidências disponíveis. Além disso, terem um senso crítico para selecionar essas evidências e, baseados na sua experiência e habilidades, e também nas preferências dos pacientes, aplicarem os melhores tratamentos dentro dessa tríade. Isso seria o melhor dos mundos. Mas, na minha opinião, isso ainda é utópico, pelo menos a curto prazo.”

Para ele, parte dessa dificuldade tem raiz em um deslocamento observado no ambiente profissional: o peso atribuído à informação científica vem sendo progressivamente substituído pelo engajamento digital. Influenciadores com grande audiência passam a ter mais impacto sobre condutas clínicas do que pesquisadores que dedicam anos à produção de evidências.

Diante dessa realidade, ele aponta um caminho mais viável: o do comunicador científico como ponte entre a produção de conhecimento e o consultório. “A melhor alternativa, na minha opinião, diante da realidade atual, é que alguns comunicadores científicos sejam esse atalho para o Cirurgião-Dentista. Essas pessoas poderiam ser pesquisadores com formação para gerar novas evidências de qualidade, ou apenas bons comunicadores com formação para avaliar criticamente as pesquisas já existentes e levar aos profissionais essas informações já filtradas. Essas informações podem ser divulgadas nas redes sociais, mas os conselhos, as entidades de classe e as associações, como a APCD, devem desempenhar esse papel, nos seus meios de comunicação e congressos.”

Ferramentas de inteligência artificial também entram nesse horizonte. Para o Prof. Dr. Fausto, elas tendem a facilitar o acesso e a organização da informação científica, aproximando a evidência da rotina clínica. “Independentemente do meio em que o clínico busque essas informações, o senso crítico e o ceticismo devem ser a regra. Os Cirurgiões-Dentistas não devem aceitar cegamente as alternativas propostas, sejam elas provenientes das redes sociais, ferramentas de IA ou mesmo de artigos científicos publicados. A melhor decisão requer que várias fontes sejam consultadas e que o profissional exercite cada vez mais o senso crítico para chegar às melhores condutas para seus pacientes.”

Para a APCD, apoiar a ciência, como propõe a Organização Mundial da Saúde, não se limita a um princípio abstrato, mas se traduz na prática clínica, na forma como o Cirurgião-Dentista seleciona, interpreta e aplica a informação antes de transformá-la em conduta.