Guia lançado por pesquisadores da FOUSP e especialistas apontam como a prática clínica pode reduzir resíduos, custos e pegada ambiental, sem renunciar à biossegurança

A Odontologia existe para cuidar da saúde das pessoas. Mas, para isso, consome água, energia e gera resíduos numa escala que costuma passar despercebida, inclusive pelos próprios profissionais. Boa parte desse impacto não está no que se vê na cadeira, e sim “escondida” na fabricação, no transporte e no descarte dos materiais que entram e saem do consultório todos os dias.
É desse ponto de partida que trata o e-book Sustentabilidade em Odontologia: um guia prático, lançado em 2026 por pesquisadores da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP). A proposta é aproximar o tema da rotina clínica, com orientações aplicáveis no dia a dia e voltadas tanto a estudantes quanto a profissionais já formados.
O impacto que está escondido
Para a Profa. Dra. Marinella Holzhausen Caldeira, organizadora do guia, a discussão é incontornável. “Não dá mais para formar profissionais de saúde sem discutir o impacto que a nossa prática tem sobre o planeta”, afirma. Segundo ela, a Odontologia cuida das pessoas, mas utiliza muitos materiais, consome água e energia, gera resíduos e depende de uma extensa cadeia de produção e descarte.
Um dos conceitos centrais da obra é o do “carbono escondido”. A pesquisadora explica que se trata do “impacto ambiental que não aparece no momento em que usamos um produto, mas que já está incorporado em toda a sua trajetória”: extração da matéria-prima, fabricação, transporte, embalagem, armazenamento, uso e descarte. Ou seja, uma luva, uma máscara, uma broca ou uma embalagem plástica carrega uma história ambiental antes mesmo de chegar ao consultório.
O alerta, ressalta Dra. Marinella, não significa abrir mão de cuidados essenciais. “Não se trata de comprometer a biossegurança ou a qualidade do atendimento, mas de compreender que o consumo clínico também tem consequências ambientais reais”, observa. A mensagem, segundo ela, é que cada escolha de compra, cada desperdício evitado e cada material usado de forma mais consciente pode reduzir impactos.
Sustentável e mais eficiente
Se o guia ajuda a enxergar o problema, a prática clínica mostra que enfrentá-lo pode ser vantajoso também no bolso. É o que defende o Prof. Dr. Claudio Pinheiro Fernandes, coordenador do Núcleo de Odontologia Sustentável da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Nova Friburgo. “Ser sustentável significa essencialmente aproveitar melhor os recursos materiais e energéticos e, portanto, resulta em expressiva redução de custos operacionais”, afirma.
Entre as economias mais diretas, o especialista cita as contas de água, energia e a gestão de estoque, favorecidas pela adoção de equipamentos de menor consumo, sensores automáticos de liga e desliga e controle digital do inventário de materiais, que otimiza compras e reduz despesas de frete e administrativas. Ele pondera, no entanto, que a transição costuma exigir investimentos iniciais, como a troca de equipamentos e a formação continuada da equipe.
A água é um bom exemplo de quanto há a ganhar. O Dr. Claudio aponta que o consumo nos consultórios odontológicos é um dos maiores entre as atividades humanas, chegando a ser “até 7x maior que a média recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para uma pessoa”. Boa parte desse volume, explica, vem dos sugadores que utilizam água encanada para produzir vácuo — um desperdício que poderia ser evitado com a adoção de bombas a vácuo secas.
Outro ponto de atenção são os equipamentos de proteção individual (EPIs), em geral feitos de TNT, um tipo de plástico de difícil decomposição. Para o coordenador, protocolos de uso bem definidos, treinamento da equipe, a substituição por produtos reutilizáveis quando permitido e a adoção de um Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde (PGRSS) ajudam a reduzir despesas e a garantir uma destinação ambientalmente segura.
De acordo com o Dr. Claudio, o descarte de resíduos contendo mercúrio — caso dos restos de amálgama — também figura entre os de maior impacto. O Brasil é signatário da Convenção de Minamata sobre o Mercúrio desde 2017 e assumiu o compromisso de eliminar gradualmente o uso do amálgama dentário até 2030.
Para Dra. Marinella, muitas das mudanças mais efetivas começam justamente em ações simples. Ela cita a redução de desperdícios, o descarte correto de resíduos, o uso consciente de água e energia, a digitalização de processos e o planejamento mais eficiente dos atendimentos como medidas capazes de gerar impacto real na rotina clínica.
A pesquisadora também chama atenção para um aspecto frequentemente esquecido: a prevenção. “Quando prevenimos doenças bucais, reduzimos a necessidade de procedimentos mais complexos, de deslocamentos, de materiais, de anestésicos, de descartáveis e de resíduos”, afirma. “Ou seja, uma Odontologia preventiva é boa para o paciente e também para o planeta.”
Nessa mesma direção, o Dr. Claudio destaca o potencial do fluxo digital e da teleodontologia — recursos que, segundo ele, reduzem consumo de energia, geração de resíduos e custos, ao mesmo tempo em que ampliam o acesso dos pacientes a ações de prevenção.
Do discurso à rotina
Para o coordenador da UFF, o guia da FOUSP é “muito bem-vindo para aumentar o debate no setor e orientar as equipes de saúde bucal” sobre o problema e suas alternativas. Mas, para que a Odontologia sustentável saia do discurso e vire rotina, ele defende um envolvimento mais profundo dos órgãos reguladores e da formação profissional. Entre as medidas que sugere estão a adoção de um selo de eficiência energética para equipamentos odontológicos e a inclusão da sustentabilidade como conteúdo nos cursos técnicos, na graduação e na especialização.
A aposta na formação é também o horizonte da Dra. Marinella. Para ela, sustentabilidade “não é apenas reciclar ou economizar água”, mas um conjunto de escolhas diárias — de como se compra e se usa o material a como se descarta e se educa o paciente. “O Cirurgião-Dentista do futuro precisa ser tecnicamente competente, ético, sensível às necessidades da sociedade e consciente do seu papel ambiental”, conclui. “Sustentabilidade é cuidado, responsabilidade e é uma oportunidade de formar profissionais mais preparados para o futuro.”

