A Odontologia Hospitalar tem ganhado cada vez mais espaço como área essencial no cuidado de pacientes internados ou com condições sistêmicas complexas. Mais do que tratar dentes e gengivas, sua atuação está diretamente ligada à prevenção, diagnóstico e manejo de alterações bucais que podem interferir na evolução clínica geral.
Para discutir o tema, trouxemos a Profa. Dra. Karem López Ortega, docente do Departamento de Estomatologia, que destaca a importância de compreender a cavidade oral como parte integrada do organismo.
“No ambiente hospitalar, a boca deixa de ser um território isolado. Alterações bucais podem agravar quadros sistêmicos, aumentar riscos infecciosos e impactar diretamente a qualidade de vida do paciente”.

Graduada em Odontologia. Possui mestrado e doutorado em Patologia Bucal pela FOUSP. Atua como Professora do Departamento de Estomatologia. Vice-coordenadora do Centro de Atendimento a Pacientes Especiais. Professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Odontológicas, área de concentração em Patologia Oral e Maxilofacial e Pacientes Especiais. Coordenadora do Comitê de Ética em Pesquisa e membro da Comissão de Pesquisa da FOUSP. Atua principalmente nos seguintes temas: doenças infecto-contagiosas (HIV/AIDS, hepatites virais, HTLV), manejo odontológico e qualidade de vida de pacientes com doenças sistêmicas crônicas, excreção salivar de virus (poliomavirus humanos, torque teno virus, herpesvirus humanos).
Integração multiprofissional e impacto clínico
No hospital, o cirurgião-dentista atua de forma integrada com equipes multiprofissionais, ao lado de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas e outros profissionais da saúde. Seu papel é identificar e controlar condições bucais que possam comprometer o estado geral do paciente, contribuindo para um cuidado mais completo.
Essa atuação tem impacto direto no prognóstico clínico. O controle de focos infecciosos, o manejo da dor e a melhora da condição bucal favorecem a alimentação, a recuperação e a segurança do paciente, especialmente em casos de internação prolongada, imunossupressão, quimioterapia ou ventilação mecânica.
A docente ressalta que a negligência da saúde bucal pode agravar significativamente o quadro clínico. Infecções odontogênicas, doença periodontal, acúmulo de biofilme e outras alterações podem funcionar como reservatórios de microrganismos e contribuir para complicações sistêmicas.
Acesso, vulnerabilidade e humanização do cuidado
A Odontologia Hospitalar também desempenha papel importante na redução das desigualdades no acesso à saúde. Muitos pacientes hospitalizados enfrentam situações de vulnerabilidade social, limitações físicas ou condições crônicas que dificultam o acesso ao atendimento odontológico convencional.
Ao integrar o cuidado bucal ao ambiente hospitalar, amplia-se o acesso justamente para aqueles que mais necessitam, promovendo uma assistência mais equitativa e resolutiva. Além disso, essa abordagem contribui para reduzir a fragmentação do cuidado em saúde, aproximando as dimensões médica e odontológica. Nesse contexto, a prática exige não apenas competência técnica, mas também sensibilidade ética.
“É fundamental reconhecer a fragilidade do paciente sem reduzi-lo a ela, oferecendo um cuidado humanizado, respeitoso e livre de preconceitos”.
Manejo clínico e desafios éticos
O atendimento odontológico no hospital requer adaptações específicas, especialmente em pacientes imunossuprimidos ou com condições clínicas complexas. O planejamento deve ser individualizado, considerando fatores como risco infeccioso, sangramento, uso de medicamentos e estado geral do paciente.
A professora enfatiza que a imunossupressão não deve ser vista como um impedimento, mas como um indicativo da necessidade de cuidado ainda mais criterioso. Nesse cenário, o trabalho integrado com a equipe médica é fundamental para garantir segurança e eficácia.
Outro ponto relevante envolve os desafios éticos, especialmente em pesquisas clínicas realizadas com pacientes hospitalizados. A vulnerabilidade desses indivíduos exige atenção redobrada no processo de consentimento e na garantia de que a participação seja realmente livre e consciente.
“O grande desafio é equilibrar a produção de conhecimento científico com a proteção efetiva de pacientes em situação de maior fragilidade”.
Formação profissional e o “olhar além da boca”
Na formação acadêmica, a Odontologia Hospitalar e o atendimento a pacientes com necessidades especiais desempenham papel fundamental no desenvolvimento de competências técnicas e humanas.
De acordo com a docente, essas experiências ensinam que o paciente não pode ser reduzido a um procedimento. É necessário considerar suas condições sistêmicas, contexto social, limitações e necessidades individuais.
“Olhar para além da boca significa entender que qualquer decisão odontológica pode ter impacto na saúde geral. O cuidado só é completo quando o paciente é visto em sua totalidade”.
Embora os novos profissionais saiam com boa base técnica, o ambiente hospitalar exige preparo adicional para lidar com situações de maior complexidade, vulnerabilidade e, muitas vezes, com a própria finitude da vida.
A Odontologia Hospitalar, portanto, consolida-se como uma área essencial para a promoção de um cuidado mais integrado, humano e seguro, reforçando o papel do cirurgião-dentista na saúde geral do paciente.
Texto: Maria Eduarda Kise

