A saúde bucal infantil vai muito além da prevenção de cáries e, com isso, a odontologia tem ampliado seu olhar para compreender como fatores familiares, comportamentais, sociais e tecnológicos influenciam a saúde das crianças ao longo da vida.

Para aprofundar esse tema, conversamos com a Profa. Dra. Thais Gimenez Cóvos, do Departamento de Ortodontia e Odontopediatria

Profa. Dra. Thais Gimenez Cóvos – Foto: Carômetro

Graduação em Odontologia, Doutorado em Ciências Odontológicas, com área de concentração em Odontopediatria, e Pós-Doutorado em Odontopediatria, todos pela FOUSP. Foi Professora colaboradora III (Programa PART) da Disciplina de Odontopediatria e professora concursada contratada temporariamente da Disciplina de Odontopediatria. Autora e coautora de artigos científicos nacionais e internacionais, capítulos de livros, e-books e colaboradora geral do livro de Diretrizes Nacionais em odontopediatria da Associação Brasileira de Odontopediatria (ABOPED). Membro da Equipe Brasileira de Odontopediatria (EBO) e da Associação Paulista de Odontopediatria (APO). Editora associada do periódico BMC Oral Health e revisora de diversos periódicos nacionais e internacionais. Formada em Perícia Judicial e Assistência Técnica Judicial.

A cárie como desafio persistente

Apesar dos avanços obtidos nas últimas décadas, a cárie dentária continua sendo uma das doenças mais frequentes na infância e um importante problema de saúde pública no Brasil.

Segundo a docente, os desafios para a promoção da saúde bucal infantil envolvem diferentes fatores, como desigualdades socioeconômicas, dificuldades de acesso aos serviços odontológicos e hábitos alimentares inadequados desde os primeiros anos de vida.

Além disso, muitas crianças ainda chegam ao atendimento odontológico apenas quando a doença já está instalada, o que limita o potencial das ações preventivas.

“Ainda existe o desafio de integrar a saúde bucal à saúde geral da criança e ampliar a compreensão das famílias sobre a cárie como uma doença prevenível e que pode trazer impactos importantes para a qualidade de vida”.

Hábitos que começam na infância

As evidências científicas demonstram que os hábitos construídos durante a infância e a adolescência têm repercussões que podem ser observadas décadas depois.

Práticas como escovação regular, uso adequado do flúor e acompanhamento odontológico periódico estão associadas a melhores condições de saúde bucal na vida adulta. Por outro lado, experiências negativas relacionadas ao tratamento odontológico e dificuldades no acesso ao cuidado podem contribuir para piores desfechos ao longo do tempo.

O contexto familiar exerce papel central nesse processo. Pais e responsáveis funcionam como modelos comportamentais, influenciando diretamente hábitos de higiene, alimentação e utilização dos serviços de saúde.

“A família é um dos principais determinantes da saúde bucal infantil. Os comportamentos observados dentro de casa tendem a ser reproduzidos pelas crianças e podem impactar sua saúde ao longo de toda a vida”.

Além dos responsáveis, fatores como escolaridade, renda familiar, acesso à informação e até mesmo a influência de irmãos mais velhos podem interferir na formação desses hábitos.

Estratégias educativas e o papel da escola

Nos últimos anos, pesquisas têm apontado que as estratégias mais eficazes de promoção de saúde bucal são aquelas que combinam educação, participação ativa dos estudantes e medidas preventivas contínuas.

Diferentemente das abordagens tradicionais, centradas apenas na transmissão de informações, os programas mais bem-sucedidos utilizam atividades interativas, como jogos, dramatizações, recursos audiovisuais e dinâmicas práticas.

A escola tem se mostrado um ambiente especialmente favorável para a implementação dessas ações, principalmente quando há envolvimento simultâneo de alunos, professores e familiares.

“Os melhores resultados são observados em programas contínuos, que associam educação em saúde, supervisão de escovação e medidas preventivas realizadas de forma integrada”.

Entre essas medidas, destacam-se a aplicação de flúor, o uso de selantes e a distribuição de materiais de higiene bucal, que potencializam os efeitos das ações educativas.

Inteligência artificial e diagnóstico precoce

A incorporação da inteligência artificial à odontologia tem ampliado as possibilidades de prevenção, diagnóstico e acompanhamento de pacientes pediátricos.

Na prevenção, algoritmos de machine learning já são capazes de identificar crianças com maior risco de desenvolver cárie a partir da análise de fatores comportamentais, socioeconômicos e clínicos. Isso permite direcionar recursos e intervenções de forma mais eficiente.

No diagnóstico, sistemas de visão computacional vêm apresentando resultados promissores na interpretação de radiografias e na detecção de alterações bucais.

Além da identificação de lesões de cárie, essas tecnologias também podem auxiliar na detecção de dentes supranumerários, alterações do desenvolvimento dentário e na estimativa de idade dental.

“A inteligência artificial deve ser entendida como uma ferramenta de apoio à tomada de decisão clínica. Seu papel não é substituir o profissional, mas fornecer informações adicionais para decisões mais precisas”.

Importância da ciência de dados

As tecnologias baseadas em ciência de dados também estão contribuindo para uma abordagem cada vez mais individualizada do cuidado.

Por meio da análise de grandes volumes de informações, pesquisadores conseguem identificar padrões relacionados ao comportamento dos pacientes, à adesão aos tratamentos e aos fatores que influenciam o desenvolvimento de doenças bucais.

Na prática clínica, isso pode permitir a elaboração de estratégias preventivas adaptadas às características específicas de cada criança e de sua família.

O uso de deep learning na análise de imagens também tem potencial para auxiliar em situações frequentes da rotina odontopediátrica, como o planejamento ortodôntico e a avaliação de anomalias dentárias.

De acordo com a professora, um dos principais objetivos dessas pesquisas é compreender melhor por que algumas famílias conseguem manter hábitos preventivos de forma consistente, enquanto outras enfrentam maiores dificuldades para aderir às orientações de saúde.

Perspectivas para o futuro

Para a professora, a expectativa é de uma odontopediatria cada vez mais digital, preventiva e personalizada. Ferramentas como inteligência artificial, aplicativos de monitoramento, teleodontologia e modelos preditivos tendem a ampliar a capacidade de identificar riscos e direcionar intervenções precoces.

No entanto, ela destaca que a incorporação dessas tecnologias deve ocorrer de forma crítica e baseada em evidências científicas.

Embora sistemas de IA apresentem elevada capacidade diagnóstica, é necessário avaliar não apenas sua precisão, mas também seus impactos clínicos e os possíveis riscos associados ao sobrediagnóstico e a intervenções desnecessárias.

“Um sistema de inteligência artificial pode ter excelente desempenho técnico, mas isso não elimina a necessidade de avaliação clínica e de um olhar centrado na criança e em sua família”.

Nesse cenário, o maior desafio pode não ser tecnológico, mas educacional. A formação dos futuros profissionais exigirá conhecimentos em ciência de dados, bioética e pensamento crítico, para que as novas ferramentas sejam utilizadas de forma responsável e segura.


Texto: Maria Eduarda Kise