Prof. Dr. Roberto Chaib Stegun, docente do Departamento de Prótese, encabeça projeto de sustentabilidade que busca reduzir o impacto ambiental de resíduos odontológicos

Com quase 30 anos de docência na FOUSP, o Prof. Dr. Roberto Chaib Stegun atua na área de prótese dentária, com materiais dentários e impressão 3D, realiza pesquisas sobre retenção de prótese removível (com implantes e encaixes) e materiais termoplásticos flexíveis para prótese, além de coordenar o Curso de Especialização em Prótese Dentária na FUNDECTO e ser vice-coordenador do projeto Envelhecer Sorrindo
O projeto em questão está desenvolvendo uma solução sustentável para um problema crônico da profissão: o grande volume de gesso e alginato que são descartados inadivertidamente. A iniciativa, coordenada pelo Prof. Dr. Roberto Chaib Stegun, visa transformar esses resíduos em adubo, de forma que não sobrecarregue os aterros sanitários e não seja descartado “de qualquer maneira”.
A origem do projeto
A ideia surgiu durante uma expedição do docente ao Baixo Rio Madeira, no Amazonas, para realizar atendimentos protéticos em comunidades ribeirinhas e indígenas. Ao se deparar com a necessidade de transportar um total de 120kg de gesso e alginato, ele questionou o impacto do descarte desses materiais na natureza.
Um agrônomo da equipe indicou que, devido à composição (sulfato de cálcio no gesso e a origem natural do alginato), os materiais poderiam servir como adubo para áreas verdes. De volta a São Paulo, a ideia foi formalizada em um projeto de iniciação científica, no qual a aluna Vitória Eiras de Oliveira entrou em cena.
O impacto do descarte e a solução
O volume de material descartado durante a formação de cirurgiões-dentistas e técnicos é expressivo, com a FOUSP consumindo, em média, 500 kg de gesso anualmente.
“Somente na disciplina de Prótese Removível, cada um dos 130 alunos utiliza cerca de cinco modelos de gesso, totalizando aproximadamente 320g por estudante.”
Prof. Dr. Roberto Chaib Stegun
No aprendizado prático, a busca pela precisão leva os alunos a refazerem moldagens de três a cinco vezes, gerando um volume considerável de descartáveis que, tradicionalmente, são tratados como lixo comum e enviados a aterros sanitários.


Para reverter esse cenário, a iniciativa foca nos pilares da economia circular, conhecidos como os 3 “Rs”: recolher, reciclar e reaproveitar. O objetivo é criar um ciclo onde o material que seria descartado retorne à sociedade como um benefício ambiental. Para isso, a aluna Vitória Eiras de Oliveira viabilizou a parceria técnica com a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), que, via Laboratório de Caracterização Tecnológica (LCT), forneceu o equipamento utilizado para triturar o gesso e o alginato, enquanto a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP (ESALQ-USP) contribuiu com o suporte técnico para determinar parâmetros como o tamanho adequado do grão para a eficiência do adubo.
O processo de transformação segue um protocolo de duas etapas principais:
1. Coleta e Higienização: os modelos de gesso são sistematicamente recolhidos de clínicas e laboratórios da faculdade. Após a pesagem, os materiais passam por um processo de desinfecção com hipoclorito a 2% para garantir a segurança biológica do manejo.
2. Trituração Tecnológica: com o apoio técnico da Poli-USP, os modelos higienizados são processados em um moinho pulverizador de disco. Esse equipamento tritura o material sólido até que ele seja transformado em um pó, pronto para nova aplicação.


O plano é que, nos próximos 6 meses, seja conduzida uma experimentação agrícola: o pó resultante da trituração será misturado à terra comum em proporções iguais para atuar como fertilizante. Para validar a eficácia do insumo, será conduzido o plantio experimental de cenouras em quatro ambientes controlados (sem o insumo; apenas com gesso triturado; apenas com alginato triturado; com gesso e alginato triturado), permitindo a comparação científica do crescimento das plantas de acordo com esses fatores.
Futuro e expansão
As perspectivas futuras do projeto contemplam uma ampla articulação institucional e governamental para formalizar e expandir a logística de remoção desses resíduos para consultórios e faculdades em todo o território nacional. Paralelamente, a iniciativa aposta na digitalização da prática clínica como estratégia de redução na origem, sugerindo a substituição de modelos físicos pelo escaneamento intraoral e o armazenamento de dados em nuvem, sem comprometer as exigências legais de guarda da documentação odontológica.
Além disso, o escopo da pesquisa já se estende para o campo das resinas e cerâmicas, buscando soluções de reaproveitamento para os descartes de impressão 3D e fresagem, que representam um volume crescente de resíduos plásticos e sólidos na odontologia digital.
Texto: Théo Gouvêa Filizzola

