Pesquisas recentes indicam que infecções orais crônicas, como a periodontite, podem agravar processos inflamatórios no sistema nervoso, acelerando a progressão da demência

A Doença de Alzheimer (DA) é a causa mais comum de demência em idosos e, embora seja uma condição neurodegenerativa, sua relação com a saúde do corpo vai muito além do cérebro. A Profa. Dra. Marina Helena Cury Gallottini, docente do Departamento de Estomatologia e coordenadora do CAPE-FOUSP, reforça que a saúde bucal é peça-chave tanto na prevenção quanto no manejo da doença.

A Profa. Dra. Marina Helena Cury Gallottini é Professora Titular da disciplina de Patologia Oral na FOUSP. Com formação acadêmica integralmente pela própria universidade e pós-doutorado nos Estados Unidos, possui extensa experiência na área de Pacientes com Necessidades Especiais, coordenando o CAPE desde 2000. Além de sua atuação como docente, exerceu cargos estratégicos na gestão universitária, como a chefia do Departamento de Estomatologia e a coordenação do Escritório Alumni USP e, mais recentemente, foi Secretária Geral da USP na gestão reitoral de 2021-2025

Profa. Dra. Marina Helena Cury Gallottini – Foto: Carômetro da FOUSP

A conexão biológica

Estudos recentes revelam que a relação entre doença periodontal e Alzheimer não é mito. Bactérias como a Porphyromonas gingivalis, típicas de infecções gengivais, foram detectadas em cérebros de pacientes com a doença. Acredita-se que esses patógenos migram para o sistema nervoso, ativando células de defesa (microglia) e exacerbando a neuroinflamação.

“Intervenções terapêuticas para a periodontite podem mitigar o impacto no início e na progressão da DA”

Profa. Dra. Marina Helena Cury Gallottini

Além disso, o próprio Alzheimer pode agravar a saúde bucal: com a perda da autonomia, a higiene pode se tornar precária e o uso de certos medicamentos podem reduzir o fluxo salivar, o que aumenta o risco de cáries e infecções.

Logotipo do CAPE-FOUSP


O CAPE oferece atendimento gratuito para pacientes com necessidades especiais — conceito que abrange desde deficiências motoras e intelectuais, até doenças sistêmicas crônicas e condições neurodegenerativas.

Diferente de um consultório convencional, o atendimento para pacientes com Alzheimer no CAPE não segue uma “receita de bolo”. As estratégias incluem:

  1. Envolvimento familiar: O cuidador é peça central no tratamento.
  2. Manejo comportamental: Consultas curtas, ambiente tranquilo e técnicas como “falar, mostrar e fazer”.
  3. Visão Integral: Integração com neurologistas e geriatras para ajustar o tratamento ao estágio da doença e às medicações do paciente.

Em casos de recusa severa ou dor aguda sem colaboração, a equipe avalia a necessidade de sedação em ambiente

hospitalar, priorizando sempre a segurança e o conforto.

CAPE – Foto: Théo G. Filizzola

Orientações para cuidadores e responsáveis

A higiene bucal pode ser um desafio diário. Diante disso, a docente explica:

“No caso da DA, o cuidador sempre leva um tempo para “aprender” sobre as melhores estratégias desse cuidado.
Não é diferente com a higiene bucal, que em alguns casos pode ser bastante desafiadora. O cuidador deve auxiliar o idoso com Alzheimer na higiene bucal diariamente, utilizando escova de cabeça pequena e cerdas macias, creme dental fluoretado e, quando possível, fio dental ou escovas interdentais. É importante manter uma rotina em horários tranquilos, explicar cada passo de forma simples, usar demonstração visual e respeitar o ritmo do paciente. Próteses devem ser removidas, higienizadas adequadamente e removidas da boca durante o sono. Se houver
indicação de uso de enxaguante bucal, o mais aceito é a solução veiculada em água e aplicada na boca com gaze encharcada ao invés de bochecho.”

Atualmente, o CAPE estuda como o microbioma oral influencia a saúde geral (e vice-versa), com pesquisas em andamento focadas em crianças com autismo e idosos com doenças neurodegenerativas.

No mês dedicado à conscientização sobre o Alzheimer, a mensagem da docente é clara: “A saúde
bucal não deve ser negligenciada após o diagnóstico de Alzheimer, pois a boca saudável contribui diretamente para o conforto, nutrição, comunicação, prevenção de infecções e a qualidade de vida do idoso.”


Esta é uma iniciativa da Comissão de Inclusão e Pertencimento (CIP) da FOUSP para integrar as datas afirmativas ao nosso cotidiano. O objetivo é dar visibilidade a marcos históricos de luta e diversidade, promovendo um ambiente acadêmico mais acolhedor, consciente e respeitoso para todos.

Texto: Théo Filizzola