No dia 10 de março de 2026, a FOUSP foi palco de um seminário focado na saúde da população trans, reunindo especialistas, docentes e estudantes de graduação e pós. O evento detalhou o funcionamento da atividade de extensão “TransCuidar – Promoção da Saúde Bucal para Pessoas Trans: Clínica, Escuta e Inclusão”, que oferece atendimento odontológico humanizado para este público.

A Profa. Dra. Roberta Caroline Bruschi Alonso, docente do Departamento de Dentística e idealizadora da iniciativa, abriu o evento explicando que o projeto surgiu da necessidade de conhecer as particularidades dessa população, que são, muitas vezes, negligenciadas. Ela contou que o contato inicial veio de um grupo de vôlei composto por pessoas trans, o que revelou uma demanda reprimida por cuidados bucais. A docente destacou, ainda, que a ausência de dados oficiais do IBGE dificulta a elaboração de políticas públicas, mas estima-se que existam 3 milhões de pessoas trans no Brasil. “O grande objetivo é oferecer um atendimento humanizado e de qualidade… Quando a gente conhece as pessoas, a gente humaniza”, afirmou a professora.

Estão na foto, respectivamente: Sr.Alex Mélo, Profa. Dra. Roberta Alonso, Sra. Paula Moreira e Sra. Tatiana Zuccari

A palavra foi passada para a Paula Moreira de Carvalho, doutoranda da FOUSP, que explicou conceitos fundamentais, diferenciando sexo biológico (atribuído ao nascimento) de gênero (uma construção social e psicológica) e de orientação sexual (por qual(is) gênero(s) a pessoa se atrai). Ela enfatizou a importância do respeito e do uso do nome social e sugeriu que profissionais sempre perguntem os nomes e pronomes dos pacientes para evitar desconfortos.

Em seguida, a Sra. Tatiana Zuccari, psicóloga especialista no atendimento a pessoas transgênero, trouxe ao seminário uma reflexão profunda sobre a saúde mental e a importância da escuta ativa. Com quase dez anos de experiência na área, ela enfatizou que conhecer as histórias individuais de cada paciente é essencial para humanizar o atendimento e superar estigmas que tornam essas pessoas invisíveis. Durante sua fala, Tatiana apresentou dados críticos e explicou como a falta de validação social impacta o bem-estar dessa população. A palestrante também destacou que o acolhimento familiar desde a infância é vital, esclarecendo que a transição em crianças é estritamente social — envolvendo apenas nome e vestimenta — e é fundamental para evitar o isolamento e sofrimentos futuros.

A última palestra foi ministrada pelo Sr. Alex Moreira Mélo, doutorando da FORP/USP, que aprofundou as questões técnicas da odontologia. Ele explicou o conceito de “estresse de minoria”, uma carga de ansiedade extra que a população trans carrega devido ao preconceito constante. Ele detalhou, também, como a terapia hormonal impacta a face: a testosterona aumenta a massa muscular e define a mandíbula em homens trans, enquanto o estrogênio pode arredondar o rosto e aumentar a sensibilidade à dor em mulheres trans. O palestrante revelou dados alarmantes: muitos pacientes trans ficam até 10 anos sem ir ao dentista por medo de não serem respeitados. Ele ressaltou que 85% dessa população já sofreu constrangimentos em serviços de saúde. “Quando o paciente trans chega na cadeira do dentista, ele já passou por inúmeras violências”, concluiu Alex, reforçando que o consultório deve ser um ambiente de acolhimento e respeito.


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Texto e Foto: Théo Gouvêa Filizzola