
Uma parceria entre as Pró-Reitorias de Pesquisa da USP, Unicamp e Unesp possibilitou a concessão de um apoio financeiro de R$ 100 mil a R$ 500 mil, por pesquisa, para pesquisadores das três universidades que foram selecionados pelo Edital da Fapesp de Pesquisa para Desenvolvimento de Projetos em Tecnologia Assistiva. O edital também contemplou pesquisadores de outras instituições de ensino superior do Estado de São Paulo. Na última terça-feira, 18 de fevereiro, os coordenadores que tiveram seus projetos selecionados apresentaram suas propostas para melhorar a qualidade de vida das pessoas com deficiência. O encontro aconteceu no prédio do Inova USP, que fica na Cidade Universitária, na zona oeste da capital paulista.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 45,6 milhões de brasileiros vivem com algum tipo de deficiência. Nesse contexto, a tecnologia assistiva surge como uma ferramenta importante para a inclusão dessas pessoas na sociedade. Os 13 projetos contemplados pelo auxílio são coordenados por professores da USP, responsáveis pelas apresentações, e abrangem temas como técnicas para o dia a dia, acessibilidade, inovações em órteses e próteses e reabilitação. Segundo o pró-reitor adjunto de Inovação da USP, Raul Gonzalez Lima, essas tecnologias devem buscar apresentar um real impacto na sociedade.
“Hoje em dia, é inadequado gerar conhecimento sem benefício [para a sociedade]. Qualquer vocação é para o outro.”
Raul Gonzalez, pró-reitor adjunto de Inovação da USP

Durante as apresentações, os pesquisadores reiteraram a importância de incluir as pessoas com deficiência na produção e na testagem dos produtos, pois “é preciso unir a tecnologia às necessidades do usuário”, comentou Zilda Silveira, professora do Departamento de Engenharia Mecânica da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP. Zilda coordena a criação de um prato com formato especial para pessoas com tremor conseguirem se alimentar sem necessidade de ajuda.
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Além de Zilda Silveira, outros projetos estão desenvolvendo produtos que podem facilitar a autonomia de pessoas com condições que dificultam a prática de atividades do dia a dia. Paulo Capel, por exemplo, coordena uma equipe que constrói produtos de baixo custo e de fácil replicação para pessoas com baixa ou nenhuma visão, como um aplicador de pasta de dentes. “Nosso grupo enxerga o extraordinário no simples”, disse o professor.
Paulo Capel tem baixa visão e relatou, em entrevista ao Jornal da USP: “Eu sou professor de odontologia e até cinco anos atrás eu não sabia o que era tecnologia assistiva. Depois de ter me tornado uma pessoa com deficiência, a coisa veio à tona. Então, eu acho que tem mais pessoas com deficiência se interessando pelo tema. Existe uma frase muito linda, que é da década de 1970, se não me engano, que diz assim: ‘nada sobre nós, sem nós’”.
Pessoas com baixa ou nenhuma visão também encontram dificuldades no aprendizado escolar. Douglas Galante, professor de Geobiologia do Instituto de Geociências (IGc) da USP, lidera um projeto de ensino de botânica com modelos tridimensionais e informações em braile. Aline Darc, docente da Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Design (FAU) da USP, também desenvolve materiais pedagógicos que auxiliam a mobilidade, utilizando um design inclusivo.
Tecnologia virtual
A internet é outro caminho sugerido por projetos de tecnologia assistiva para solucionar entraves que pessoas com deficiência encontram no cotidiano. Fabiana Faleiros, professora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP, coordena a criação do site D+informação, um portal de comunicação segura para pessoas diversas.

“Todo mundo precisa de inclusão em algum momento da vida”
Fabiana Faleiros, professora da EERP
Mario Tronco, docente da EESC, busca traduzir imagens da internet para uma forma tátil, transformando tons de cinza em altura, e Ben-Hur Borges, também professor da EESC, comanda a constituição de um aparelho auditivo controlado pelo celular. Carlos Monteiro, professor de Educação Física e Saúde da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, está produzindo uma plataforma de jogos virtuais para a melhora no desenvolvimento de habilidades motoras e auxílio no diagnóstico de pessoas neurodivergentes.
Inovações na medicina
Os especialistas citaram, durante o evento, que muitos aparelhos para pessoas com deficiência não são utilizados por medo do preconceito ou por falta de adequação às necessidades e conforto dos pacientes. Por isso, surgiram propostas, como a de Linamara Battistella, professora da Faculdade de Medicina (FM) da USP, de criação de órteses mais leves e com melhor usabilidade.

Marco Terra, da EESC, coordena o desenvolvimento de uma cadeira de rodas inteligente e Arturo Forner-Cordero, docente da Escola Politécnica (Poli) da USP, está criando o AssistLab, um laboratório para teste de interfaces humano-máquina para pessoas com deficiências motoras. Chi Nan Pai, também professor da Poli, propõe a criação de uma prótese artística para membros superiores com coautoria do usuário. Já o grupo de Maristela Martins, da Escola de Enfermagem (EE) da USP, procura trazer soluções àqueles que cuidam de pessoas com deficiência auditiva, trazendo respostas às suas dúvidas e desafios.
Segundo Raul Gonzalez, “projetos de alta complexidade têm a vantagem de possuir acesso à Universidade” e, por isso, podem contar com a ajuda de diversos departamentos com diferentes especialidades. A maior parte das propostas também conta com a parceria de instituições além da área acadêmica, como ONGs.
Texto: Marcos Santos e Isabela Nahas*
*Estagiária supervisionada por Silvana Salles